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segunda-feira, 26 de outubro de 2020

1996

I have died everyday, waiting for you 

Darling, don't be afraid, I have loved you for a thousand years

I'll love you for a thousand more

And all along I believed, I would find you

Time has brought your heart to me, I have loved you for a thousand years

I'll love you for a thousand more


(Christina Perri)


Era a nossa escola, a nossa educação em jogo, era brigar com polícia, era ir marchando no mínimo seis quilômetros fazendo barulho em diversas capitais. Era uma passeata, estourava uma greve. Jovens éramos, derrubaríamos um ministro nos nossos quinze anos de idade, quiçá um segundo presidente.

Havia estado dias antes com você em seu aniversário, dia no qual fiz um teatro em que eu era a Julieta e você ficou morrendo de ciúme do Romeu. Alguns dias antes disso eu ainda havia combinado com uma amiga de testar a sua fidelidade e eu testar a do namorado dela. O meu passou no teste, o dela não. E você ficou chateado comigo com razão. Como me arrependo disso, ainda mais porque quando esse mocinho tentou me roubar um beijo, eu bati com a cabeça no portão da escola na tentativa de me desvencilhar.

Aprontei feio com você naquela semana. E você se aproximou de uma mocinha mais sedutora do que a tosca eu aqui e se deixou levar. Ficou com ela. E no meio da passeata veio me contar que não poderíamos mais continuar juntos porque estava gostando dela.

A partir daí as coisas acontecem na minha mente em câmera lenta. Arrepio meus curtos cabelos, somo minha voz aos gritos de ordem contra o ministro e o presidente e me junto à turma que caminhava à minha frente. Meto um beijo de língua no "Romeu", bem diante dos seus olhos. Você parado, me olhando distante, perdido. Eu andando, beijando o rapaz e olhando para você fazendo troça e lhe mirando com ódio. Segui pra outro lugar e você ficou lá, estático. Não sei o que houve mais naquele dia, minhas memórias são bloqueadas a partir do momento em que entrei num ônibus com o "Romeu" e aquela turma.

Na semana seguinte você me ligou para tentar se desculpar. Você se arrependeu. Falou que a mocinha te disse bem-feito, que ela não mandou você terminar comigo, que ela não queria nada sério com você. Eu, na minha imaturidade e no meu orgulho ferido, acabei com você. Disse que tudo o que você fosse fazer dali para a frente que nós já tínhamos feito juntos um dia você se lembraria de mim. Fossem as caminhadas pela cidade, fosse a observação das pessoas, fossem as conversas pelo olhar que tínhamos.

Acabei usando o "Romeu" como muleta emocional durante os quatro meses de greve. Outro arrependimento monstro que tenho, ter magoado um cara tão legal.

Quando voltamos, você já estava com outra menina, que me media de cima a baixo. Um dia, chamei-a num canto e disse que ela não precisava me temer, porque eu gostava tanto de você que eu estava deixando o caminho livre para vocês serem felizes. Ela se assustou e até passou a me cumprimentar. E eu ali, amargando olhar para vocês de mãos dadas na hora do intervalo. E guardei meu amor para mim.

Aí troquei de turno, de curso, de turma e assim fugi de vocês. Segui minha vida, tive outros relacionamentos. E você também, pelo que soube. Nossos amigos em comum sempre souberam que eu era louca por você, mas sobre os seus sentimentos eu não tinha certeza. Nunca tive.

Cinco anos depois nos reencontrávamos na universidade. Minhas pernas ficavam bambas cada vez que eu te via quando tinha aula no seu prédio. Custamos a nos reaproximar e retomamos a nossa relação. Eu estava feliz de novo com você.

Mas eu não sabia o que acontecia, existia uma coisa ali que não falava, e pela primeira vez não consegui ler seus olhos em tantos anos. Você me afastou e eu nunca soube o porquê. Aquilo acabou comigo, pois sempre pensei que o problema fosse eu. Talvez porque cinco anos depois eu já estivesse mais chata, mais responsável, querendo mais da vida. Querendo um objetivo com você. Mas não funcionou. Saí de cena mais uma vez. Doeu. Muito. Você não faz ideia do quanto.

Depois disso, minha vida amorosa foi uma sucessão de fracassos e ganhei depressão, ansiedade e baixa autoestima. Tornei-me uma viciada em redes sociais, buscando em outros, principalmente de lugares distantes, os bons papos que tinha com você. Meu déficit de atenção gritou e a bipolaridade explodiu. Eu era a funcionária maravilhosa e dedicada, com toque de Midas, como você mesmo diz, que não tinha inteligência emocional. Resolvia tudo em rompantes - igualzinha a você.

O dia que mais me doeu após nosso afastamento foi sete anos depois, quando eu subia uma rua do centro e vi, pela visão periférica, você e uma menina, na rua, entre as motos. Eu ia fingir que não vi, mas você me chamou e me apresentou a sua namorada. Morri por dentro, o sangue se esvaiu do meu rosto. Ela me odiou de cara tal qual a do pós-greve. Entretanto, mais uma vez deixei o caminho livre para que você fosse feliz ao seu jeito. Você que não viu, mas segui o resto da rua chorando.

Perdi. Naquele dia perdi. Você se casou com ela no mesmo ano que eu me casei com outra pessoa, e ao que parece você é feliz com ela. Vocês tiveram um filho, assim como eu. Mas eu já me separei, porque não aguento mentir para mim mesma.

Sempre me lembro de você. Hoje sou eu que faço as coisas que lhe disse ao telefone que iam fazer você se lembrar de mim. Sempre direciono orações a você. Guardei meu amor para mim, o verde dos seus olhos é uma constante na minha memória. Abri mão de você outra vez por tanto amar você. E como diz a música ali em cima, eu morri todos os dias um pouco esperando por você. Amei você mil anos e amarei outros mil.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Senoides

A vida seria triste demais se fosse uma função constante. Aquela linha reta chata, horizontal, sempre no mesmo número, sem variações. 

Também seria insuportável se fosse apenas uma função crescente ou decrescente. Você nunca saberia para onde está indo, mas teria certeza do caminho.

Tem hora que ela parece uma parábola. Ela vem lá de cima, te joga num valor mínimo, mas depois te impulsiona. Ou o contrário: ela vem lá de baixo, faz um máximo e você volta para o limbo.

Algumas vezes essa função tem graus distintos, faz um samba aqui outro ali com aquele gráfico, mas no fundo tem o mesmo comportamento das crescentes e decrescentes em linha reta. Você tem certezas demais e não aprende o que deveria.

Já as senoides descrevem as vibrações. O tic-tac do relógio. Os sons. A luz. A palavra. O calor dos abraços, as sensações de impacto, as batidas do coração. Descobri que no fundo a vida é mesmo uma senoide. Uma hora você está lá em baixo, depois você está lá em cima. E lá de cima é uma festa. Porque você sabe que mesmo que ela vá lá para o vale, ela encerra sempre um ciclo. E recomeça. E você vibra. E é por isso que a gente vibra.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Sobre Vanusa

 "Hoje eu vou mudar

Vasculhar minhas gavetas

Jogar fora sentimentos

E ressentimentos tolos.


Fazer limpeza no armário

Retirar traças e teias

E angústias da minha mente

Parar de sofrer

Por coisas tão pequeninas

Deixar de ser menina

Pra ser mulher!


Hoje eu vou mudar

Pôr na balança a coragem

Me entregar no que acredito

Pra ser o que sou sem medo.


Dançar e cantar por hábito

E não ter cantos escuros

Pra guardar os meus segredos

Parar de dizer:


Não tenho tempo pra vida

Que grita dentro de mim

Me libertar!

(...)"


Sou fã da Vanusa. Muito. Para mim não há voz no Brasil que combine mais com rock do que a dela (desculpa, Pitty, também te amo!). Tenho acompanhado as notícias sobre sua saúde e soube hoje que ela teve alta do hospital onde estava – completou inclusive seus 73 anos lá dentro – e já está de volta para seus muitos amigos e os filhos que estão sempre por perto.

Vanusa é uma mulher inspiradora. Até um casamento abusivo ela viveu alguns anos atrás, teve que se esconder para não ser mais perseguida. Depois teve o episódio do hino nacional, onde começou a ficar claro um problema de ordem neurológica. Acaba de sobreviver a uma pneumonia severa. E renasce.

Ontem me peguei ouvindo esta música dela, que não estava na minha playlist, mas é das mais conhecidas: “Mudanças”. Ela é puro empoderamento e autoempatia. Não há coisa mais linda que uma mulher quando ela descobre a força que tem. É uma força doce e constante, e que sempre prova seus enormes efeitos no tempo. 

Quando você pensar que não dá conta, levanta essa cabeça, faz a Vanusa e só vai, minha amiga. Suave como a gaivota e ferina como a leoa.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Sete faces de uma pandemia

Quando nasci, um anjo, desses que ficam pintando luz e sombra com lápis 6B, disse: vai, Glaucia, ser guache na vida. Aí eu inventei de desenhar. E outros hobbies foram aparecendo. E também desaparecendo.

Desenhar, pintar, beber, fumar, tocar um instrumento, cantar... Qual prazer cotidiano você deixou de se permitir? 

A mãe, em meio a uma pandemia, fica louca com a correria do dia a dia, é um tal de paracasaecriançaehomeofficeecachorroegatoemaridoesograemãe que no final do dia a gente nem respira  - e nem tem tempo para sonhar, como eu disse outro dia. A tarde talvez fosse azul se a gente pudesse sentar e cuidar um pouco daqueles pequenos prazeres do dia a dia, aquelas coisinhas que você faz só pela satisfação que te trazem, para manter sua sanidade mental e seu equilíbrio. Que tal escrever hoje? Ler um texto que não é da sua área de atuação, só pelo prazer do conhecimento? E poesia, já tomou sua dose hoje?

Cuide de você. Está permitido meditar por cinco minutos que seja olhando para o monte de pernas dentro do bonde, está permitido ficar quieta e quase não conversar atrás dos seus óculos.

Pode ter certeza de que Deus não nos abandonou, pois não temos que ser Ele pra dar conta de tudo, temos é que entender que somos fracas, mas apenas em limitação física. Vá descansar, amoreco. Você já sabe que é forte e invencível. E é assim mesmo, vencendo um dia de cada vez. Amanhã tem mais.

E a gente é ainda é vasta! E se descobre tão vasta que nem o nome da gente faz rima, porque já é a solução e o apoio da casa. Já parou pra pensar o quão vasto é o seu coração?

Então cuide da sua vastidão. Ponha a sua perninha pra cima sim, vá ver vídeo de cachorrinho no YouTube sim, vá tomar um conhaque olhando para a lua no fim do dia sim. Porque você merece aquele pequeno prazer cotidiano. Você merece ficar comovida como o diabo.

sábado, 3 de outubro de 2020

É junto dos bão...

Tive uma semana completamente atípica. Quatro provas da Universidade que se acumularam em dois dias, eu virando noite pra dar conta delas.

Quarta-feira estava já com a primeira prova aberta e fui acompanhar um amigo muito querido na endoscopia. Enquanto ele fazia o exame, fui fazendo a prova com uma confiança que há muito eu não tinha. 

No mesmo dia à noite, minha mãe chega em casa e conta que meu pai a agrediu. Porém ele se esqueceu de que tá velho e levou pra ideia afora umas paneladas de pressão, bem como duas cadeiradas. Vibrei. Porque aquela legítima defesa da minha mãe lavou a minha alma. Escutei desse homem a vida inteira cada barbaridade, que eu tenho a autoestima e a carreira profissional completamente destruídas, e só agora, aos 40 anos, morando longe dele, é que eu consegui fazer o que sempre quis e principalmente descobri o que é ter paz.

Meu amigo da endoscopia é professor. Eu fico babando em tanto conhecimento. Ouvi-lo me faz bem, me alimenta a alma curiosa, me estimula a seguir em frente. Tenho outro amigo, orientando dele, que me bota pilha o tempo todo sobre pesquisa, sobre música, sobre física, sobre engenharia. Isso fora o meu orientador, que é outro amor de pessoa, meu amigo há 20 anos e que me trata como a uma filha. E estou me sentindo cada vez mais segura academicamente graças a eles, pois se antes eu tinha medo de não conseguir fazer um mestrado, agora eu quero o mundo. 

Por que eu tô contando isso? É tão difícil a gente notar que partilhar um sobrenome não é garantia de confiança! E a gente acaba engolindo um sapaial (inventei essa palavra agora) inteiro, ora porque não temos pra onde correr, ora porque você tem que ficar calada pra não atrapalhar a imagem de família margarina que as pessoas têm de vocês... Mas, uma vez que você entende isso, você segue e não olha pra trás. 

Na natureza, as leis da termodinâmica garantem que que todo processo seja executado com o mínimo de gasto de energia. Por que eu vou gastar energia com aquilo que não me dá retorno? Minha amiga, não gaste sua energia com o que não vale a pena. Cole em gente boa e que te incentiva. Não é ser interesseira, é estar perto de quem acrescenta coisas boas, edificantes e que sejam boas não somente para você, mas para a sociedade como um todo. Chama aquele seu amigo engraçado, aquela sua amiga divertida no chat.  Conversem borrachinhas como crianças, troquem boas dicas, seja você também uma incentivadora, uma impulsionadora de corações.

É JUNTO DOS BÃO QUE A GENTE FICA MIÓ.

(Guimarães Rosa)

Ah, e sobre a minha mãe, ela está bem e já está com advogado constituído. Juntas somos mais fortes. E junto de nós filhos ela tá entendendo que é bem mió do que fizeram ela acreditar.

sábado, 30 de julho de 2016

Por que a geração atual odeia parente

Toda família tem um neto ou uma neta favorita. Aquele primo perfeitinho, de quem você fica até com raiva de tão certinho que ele faz tudo na vida. Ou ele ganha bem, ou é cheiroso, ou tira sempre notas boas, sempre está em vantagem sobre o resto da família.

Recentemente, tive a oportunidade de observar uma família a pedido, e cheguei mais uma vez a esse monstruoso diagnóstico das relações humanas: família é quem a gente escolhe, o resto é parente. Vejam bem, não sou psicóloga, sou fonoaudióloga, também cuido de gente e as relações humanas, principalmente as familiares, são necessárias na minha profissão. Por isso talvez elas sejam a parte mais dolorida e demorada em uma terapia.

A quantidade de memes de facebook sobre odiar parentes é incrível. E eu e a maioria das pessoas nos identificamos com todos eles imediatamente. E foi observando essa família que citei acima que pude ver o quanto quem nos detona são os nossos próprios pais. Geração nascida na década de 50, 60, que é o caso dos meus. Antes que vocês venham com o papo sobre eu ser ingrata com eles, explico: não tenho obrigação nenhuma de ser grata por aquilo que me detonou e não me ajudou a crescer.

Nossos pais falavam mal da gente. Não sei se por falta de assunto, eles precisavam de algo em comum com os demais parentes para iniciarem uma conversa, então falavam sobre filhos. E o que tinha de bom para falar de uma criança que, como qualquer outra, não queria tomar um banho, andava com amigos que eles julgavam não muito bons, não obedecia, não isso, não aquilo? Parente adora uma fofoca, uma desgraça alheia! Como ter o mesmo sobrenome não é garantia de confiança, ali estava o prato cheio para quem sempre esperou a gente ir para o buraco: concordavam com nossos pais e ainda espalhavam para o resto da família o quanto nós éramos filhos que davam trabalho.

Aí, é claro, sempre tem aquela avó para ficar enchendo a bola do fulaninho e detonando quem? Você! E a sua mãe nunca sabia por que diabos você não queria ir à casa da avó ou daquele parente chato que só sabia detonar você. Explicava para ela e, como você só tinha 5, 6 anos, não tinha querer não, era dia de visitar o parente chato e acabou. E lá na casa do sujeito era sempre a mesma ladainha: “ain, você não obedece, ain, você é feia, você isso, ain você aquilo”. Enche o saco você ir a um lugar onde só falam mal de você. Cansa.

Até o dia em que você descobre que quem dava a munição para o parente eram os seus próprios pais. Chocante, né? Então, na família ali de cima pude ver claramente quem era a mãe que falava mal do filho e quem era a mãe que falava bem. E, pasme, vá você falar para a mãe linguaruda que o que ela está fazendo é errado: ela diz que a mãe do outro o está protegendo. É óbvio, cara pálida, ela que é a mãe dele tem mais é que proteger; se ela não o fizer, quem o fará?

Então você percebe que é por isso que hoje não consegue ser a perua que sonhou ser quando criança (acho lindo, viu, de verdade!). Sua mãe dizia que você era feia, que se vestia mal, que não podia usar maquiagem. Cresceu, tem problemas com o espelho até hoje, e ela insiste, achando que está te fazendo um bem: você não se arruma, você tá gorda, você não sabe passar maquiagem.

Você tinha uma melhor amiga, mas não podia andar com ela. Era má pessoa? Não. O problema era o bairro comentar que ela seria homossexual. Preocupar-se em orientar os filhos sobre o assunto, não podia. Mas detonar a amiguinha em questão, ah, isso podia. E para a sua família, claro.

Você tirava sempre nota boa, mas bastava um erro seu – ninguém nasce sabendo – para você virar chacota. Eu tenho asco de me lembrar de um dia em que fui humilhada dentro de casa por uma pessoa estranha a nós, porque eu era criança e não sabia que Papanicolaou e teste de beta-HCG são coisas diferentes. A minha mãe, ao invés de repreender a pessoa, vira para mim e diz “tá vendo? Quem manda abrir a boca? Quem manda ser sabe-tudo?” Até hoje eu tenho dificuldade em levantar a mão em sala de aula e tirar uma dúvida. Tenho medo de parecer burra e também de ser aquela tia chata que faz pergunta no último minuto do último horário na sexta, que vai estudar depois dos 40 porque não tem o que fazer em casa. Até que eu sou gente boa, essa pergunta no último minuto da sexta eu não faço não, meus colegas podem ficar tranquilos. Assim como eles, também estou doida para ir embora!

E a vontade de falar mal dos próprios filhos é tão mais forte que os seus pais que eles ficam sem ação quando questionados em meio ao turbilhão. Um exemplo foi esse cara do Papanicolaou. Custava a minha mãe ter dito a ele que eu tinha só 12 anos e que isso ainda não me tinha sido ensinado? Em outra família observada, custava a mãe do fulaninho cortar a tia que tirava onda das espinhas dele? Custava a mãe de outro ter dito aos demais familiares que não vê problema algum em ter um filho homossexual e que isso não vai fazê-la amar menos o filho? Custava! Elas ficavam e ficam caladas! Vá questioná-las depois do ocorrido: elas se estressam ao extremo e tentam jogar a culpa do comportamento delas em você. Na hora em que você está diante de um médico ou outro profissional de saúde, ou ainda, de um raro parente que você ama e que tem empatia por você, e tem a oportunidade de falar o que sente em relação àquilo, elas tentam de toda forma se justificar e nos silenciar, para não causar confusão em família. E nem venham me falar que é por falta de escolaridade desses pais: estou falando tanto de gente que tem somente o fundamental como gente com nível superior e pós-graduação.

Você também começa a observar que os seus pais têm bastante amizade com aquelas pessoas que todo mundo mais detesta, e eles não entendem por que essa gente é odiada. São os parentes e amigos que também falam mal dos filhos ou de alguma forma fizeram mal para a família algum dia. Os mesmos que acham um absurdo hoje em dia não bater nos filhos, os mesmos que acham absurdo mulher responder à altura de “ordem” do marido, acham que depressão é frescura, que homossexualidade é falta de porrada, que preto e/ou pobre não são gente, que alergia é invenção de menino, que acham absurdo as relações estarem descartáveis atualmente. Na via contrária, você também observa que aqueles amigos dos seus pais que você ama e que eles visitam menos são exatamente os que sempre falaram bem dos filhos. Você não se lembra de nenhuma nota ruim daquela fulaninha, filha da beltrana, lembra? Pois é, das minhas todos se lembram até hoje. Depois ninguém sabe por que eu sou grossa. Por fim, você descobre também que não tem raiva daquele primo perfeitinho lá de cima, você tem raiva mesmo é de a sua avó ficar repetindo isso o tempo todo.

Por aí você entende o quanto sua autoestima detonada favorece a aparição de pessoas abusivas e manipuladoras na sua vida, que usam a necessidade que você tem de ser amada contra você. Agridem psicologicamente, às vezes fisicamente, como sei de alguns casos, jogam a família contra você, vendem a imagem de boas pessoas para que todos acreditem que você é a errada por desprezar um sujeito tão bacana. E é claro que nesse tipo de família o vagabundo se cria, porque ele sabe que quem deveria te defender vai ajudar a detonar você. Você sempre estará errada. Então você termina com uma coisa dessas e percebe que merece muito mais da vida. E chega à maravilhosa conclusão de que não são as relações que estão descartáveis: somos nós percebendo que não temos que aceitar migalhas de atenção e chamar de isso de amor.

Sou grata por muitas coisas sim. Sou uma filha que dá trabalho? Acho que não: até hoje não fugi de casa, não usei droga (não sei nem o gosto que o cigarro tem), não tenho problema com a polícia nem com a justiça. O trabalho que eu dava era só o de ser criança e, depois, adolescente. Hoje em dia sou gente sim, fiz meu curso na universidade, trabalho com isso, com a autoestima destruída, mas em franca recuperação, tanto que nem convido esse pessoalzinho para minha casa. Não dou a parente direito nenhum de festejar quando estou na merda, muito menos de estar comigo quando estou bem. 

terça-feira, 22 de março de 2016

Estão chegando as Olimpíadas!


Estão chegando as Olimpíadas!

E com elas vem você, que acha que é obrigação de brasileiro ganhar medalha, quando na verdade você é o primeiro a dizer ao seu filho que Educação Física é inútil. Você mesmo, que acredita até hoje que a Copa de 98 foi comprada. 7 a 1 na de 2014 foi pouco!

O esporte no Brasil, em geral, à exceção do futebol e do vôlei, tem pouco ou nenhum apoio. Arthur Zanetti cogitou se naturalizar ucraniano para seguir com seu esporte, cuja medalha você achou linda, mas nos quatro anos subsequentes passou chamando Educação Física de bobagem.

Você é o mesmo que chama Música e Artes Plásticas de besteiras, e reclama de há anos não projetarmos um artista de verdade no cenário internacional.

Você é o mesmo que odeia química, que acha que equação de segundo grau é desnecessária, e que reclama que o Brasil até hoje não tem nenhum prêmio Nobel. Você considera a maioria dos conhecimentos como perda de tempo - mas tem tempo sobrando para tomar conta da vida dos outros, impressionante!

Você é o cara que acha inútil história, filosofia e sociologia, e por isso acredita em todas as montagens de Facebook e textões de Whatsapp, para depois ficar vomitando asneiras em redes sociais sobre assuntos que você não domina e que com apenas uma "googlada" poderia escrever com mais propriedade.

Sério, cara, você pode e deve torcer pelo Brasil e pelos atletas que nos representarão na nossa olimpíada. O que não dá é você ficar com raivinha por ele não ter ganhado o ouro. Você, brasileiro médio, é o primeiro a podar os sonhos alheios, especialmente os das crianças, e depois acha ruim de o país não ir para a frente.

sábado, 16 de julho de 2011

Ana Rosa

No metrô de São Paulo, cansada de mais um dia de trabalho, assento-me numa cadeira isolada, na lateral de um banco duplo, que estava vazio. Na estação da Sé, entram duas moças e ocupam esses dois lugares.

Voltei à realidade ante a beleza das meninas. Comecei a prestar atenção na conversa e nos gestos. Eram um casal, ambas bem vestidas, de botas, jaquetas de couro, uma de cerca de um metro e setenta e cinco, a outra um metro e sessenta. Seriam um casal como outro qualquer, se não fosse por um detalhe: uma delas usava um lenço na cabeça. Elas estavam voltando de um hospital, em que esta fazia um tratamento contra um câncer.

O lenço era bem colorido, diga-se de passagem. Amarelo, azul e rosa. Lindíssimo. Deu um destaque todo especial à indumentária da jovem. A mais alta, que havia ido buscar a namorada no hospital, era toda sorrisos. Olhava a companheira com ternura, acariciava-lhe a face, tocava-lhe o queixo. E começou a contar piadas, fazendo com que a pequena de lenço se esquecesse de todas as dores e começasse a rir. E falou que agora é que ela estava fina, porque o lenço combinou com a roupa. E que tinha em casa outros lenços bonitos que tinha escolhido especialmente para ela.

A pequena ria deliciosamente. Momentaneamente mergulhou na alegria da namorada, que não se continha de tanta felicidade. Ela tinha ido buscá-la no hospital depois de um dia chato de consultas, retorno, tratamento, remédio, médico, toda essa rotina cansativa e trabalhosa. Essa rotina de uma luta árdua que muitos travam todos os dias, e aquele casal estava ali, na minha frente, me dando uma lição de apoio, superação e amor. Acho que em dado instante até cheguei a ser inconveniente, porque se calaram num momento em que eu as contemplava. A verdade é que eu estava em êxtase.

As meninas desceram na estação Ana Rosa. Ana e Rosa. Seria apropriado chamá-las assim, já que eu não sabia seus nomes e pela coincidência da estação em que saltaram. A mais alta abriu o braço direito e o ofereceu à namorada de lenço na cabeça. Fez-lhe, então, um carinho no lóbulo da orelha e logo sumiram da minha vista na escada rolante. Mal sabiam elas que ali permaneci observando-lhes o tempo todo e que deixei escapar uma lágrima. 

O metrô seguia, então, seu caminho no sentido Jabaquara. Meu coração estava disparado, minha pele arrepiou. Foram poucas as vezes na vida que vi tamanha prova de amor.

É bem verdade que o amor tudo crê e tudo suporta. E sobretudo emociona.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Por que escrevi teu nome no espelho

Ganhei de dia dos namorados letrinhas vermelhas de gel com a inscrição "te amo" e um coração.

Aquelas letrinhas me fizeram divagar um bom tempo. Examinei cada uma delas antes de colar num espaço muito especial. Fiquei pensando: onde poderia pregá-las? Como poderia fazê-lo sem que ficasse escandaloso?

Não, o problema não é que eu não queira admitir que te amo. Nada disso. Na verdade, te amar é um sentimento tão doce que só quem se aproxima e se interessa em me conhecer de verdade, sem me julgar, é que poderá ler em meus olhos o quanto a tua presença me faz feliz. Amor não foi feito para ser escandaloso, por isso te amo com a serenidade e o silêncio com que se contempla um amanhecer.

O guarda-roupa é uma peça tão íntima, que conta tanto da história de alguém... Quando cheguei com as letrinhas na mão e parei defronte a ele, fiquei pensando: é, este aqui é o meu coração. É aqui que ficarão estas letrinhas. Abri, então, a porta do meio, onde fica um espelho.

Espelho que é, neste meu coração, o símbolo dos teus olhos, que refletem a paz do teu abraço e a alegria de ser tua.

Espelho que reflete nos teus olhos tudo o que sou e que passei a ser desde o instante em que comecei a te amar.

Enquanto pronunciava teu nome, na ordem fui escrevendo "te amo", colando as letrinhas vagarosamente no espelho. Interessante que fiquei observando outra coisa, enquanto lia a embalagem: o gel é lavável, como o amor. É legal, porque se renova, aí tira a poeira e brilha de novo.

Meio sem jeito, as letrinhas saíram uma a uma da embalagem. Escrever "te amo" no espelho foi o mesmo que escrever teu nome nos meus olhos e para sempre no meu coração.

domingo, 1 de maio de 2011

O amor é verde

Vasculhando as minhas coisas há alguns finais de semana, encontrei meu livro de escola da primeira série. O ano era 1987 e lá estava na contra-capa: "Glaucia Regina Piazzi, 1ª série, sala 7, professora Clêmides". O quarto capítulo era sobre a letra c, fonema /k/, com o lindíssimo poema "Colar de Carolina", de Cecília Meireles. E o livro era bacana porque não só explicava letra e fonema, como também suscitava discussões sobre o tema do capítulo. E o tema deste era "cores".

Ah, vocês não sabem a alegria com que olhei a minha letra, do tempo em que era redondinha, mas já rebelde, porque a professora dizia que deveríamos escrever uma palavra por completo para só depois colocarmos seus respectivos sinais gráficos. O v de todo mundo fazia uma voltinha antes, o meu já começava sem ela, fosse maiúsculo ou minúsculo. A pergunta do livro era: "que cor você acha que tem o amor? Por quê?" E a minha resposta foi, com o V sem voltinha: "Verde. Porque simboliza muita esperança." 

Caramba, hoje eu tenho noção da profundidade da minha resposta: uma criança de sete anos dizendo que o amor é verde porque é esperança, e é mesmo! A gente chora, quebra a cabeça, mas segue acreditando que um dia vai encontrar alguém (ou algo) bacana para amar, toma outra traulitada, se decepciona e depois encontra outro e o ciclo recomeça. Sim, tem um pouco de paixão neste conceito. Mas o amor está é dentro de nós. Nós é que oferecemos o amor a outrem. Nós é que acreditamos ser capazes de transformar o mundo com a força do nosso amor.

Hoje fui ao supermercado usando a camisa do América. Não sei por que cargas d'água todo mundo ficou me olhando. Mentira, sei sim. É porque ontem meu time perdeu para o Atlético Mineiro, de virada, por 2 x 1, e assim mesmo eu vesti a camisa e saí. E o que é isso senão amor? Torcedor de qualquer outro time ficaria invocado e não vestiria o manto no pós-derrota. Nós não. Não sofremos justamente porque amamos, porque temos esperança, porque conhecemos o time para o qual torcemos. Não sofremos porque no amor não há espaço para dúvidas. E eu não tenho dúvidas de que o meu amor é verde.

O jogo de ontem foi ótimo. Não pelo resultado nem pelo esquema tático (qual?), mas pela história que rendeu. Já viram americano em delegacia? Pois é, fomos a uma ontem, e fazendo festa, porque realmente é inconcebível e incompatível um torcedor cuja camisa é atestado de boa-fé em todo o território nacional ser preso, ainda mais por desacato. O pior: o desacato não ocorreu, quem mandou o torcedor ir à p*ta que pariu foi o policial. Vai entender... E, enquanto aguardávamos a liberação do nosso motorista para voltarmos a Belo Horizonte, conversávamos sobre quem é o torcedor americano. 

A torcida é pequena e acaba que todo mundo meio que já se conhece. Foi engraçado quando surgiram duas meninas bonitas lá no meio e o pessoal se perguntou: quem são? Imediatamente começamos a rir da nossa constatação, dizendo que somos tão família que quando surge alguém novo por lá a gente logo percebe e fica instigado a conhecer. A propósito, nós, meninas, não tomamos mãozada lá no meio da galera!

Até a polícia não precisa mover uma palha para nos conter. Não há necessidade. Se existe uma corda de isolamento entre a arquibancada e o alambrado, é para que nós não a ultrapassemos. Compreendemos a instrução conforme é dada. Xingamos, gritamos, berramos palavrões como qualquer outra torcida (berrar palavrão é terapêutico!). Mas ultrapassar os limites da boa educação, isso nunca. Já disse e repito, a história da delegacia foi algo totalmente inusitado e a coisa mais non sense que já vi acontecer na torcida do América.

E os veículos nos quais nós americanos chegamos? Todos limpos e organizados, alguns mais simples, outros mais pomposos. Mas garanto a vocês que um Chevette vermelho, tocando funk em 2 milhões de watts PMPO (Potência Musical Para Otário, eu diria), rebaixado, com dois aerofólios - um no teto e um no porta-malas - não pertencia a nenhum torcedor alviverde.

A gente tem paixão? Claro que tem, é aquele conceito que falei ali em cima. Mas paixão sozinha não sobrevive. Ela precisa do amor, pois ele é o alicerce para que ela seja consciente e não soframos. Paixão sozinha é burra, ela tem que ser não o prato principal, mas sim o tempero do amor. Nós americanos apanhamos, mas continuamos amando esse time mesmo aos trancos e barrancos. Deve ser porque o amor é algo que vem de dentro de cada um de nós e com ele acreditamos e temos a esperança da renovação.

Por isso saí com a minha camisa assim mesmo. Ser cruzeirense ou atleticano em Belo Horizonte não faz diferença, ninguém liga. Mas americano não. Gosto de ser notada. Adoro ver a cara de espanto ou de admiração de desconhecidos quando estou usando o manto verde e negro. Gosto quando gritam "Coelho!", o time tendo perdido ou ganhado eles falam nosso nome. Ninguém briga conosco. Somos de paz. Aceitamos as brincadeiras e respondemos numa boa. Temos tudo o que é necessário para um bom torcedor: classe, paz, paixão e amor.

Falem o que quiserem. Só nós somos decacampeões. E o amor é verde.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Solitários na rede


Somos lo que somos
Y nos entendemos a lo lejos
Somos los que somos
Desunidos
Pero queremos amor

(Beto Cuevas - “Hablame”)


O amazonense Roosivelt Pinheiro me tocou o coração com uma obra intitulada “Solitário na/da rede”, e tive a oportunidade de admirá-la em Belo Horizonte e em São Paulo, com a mesma emoção e o mesmo arrepio ao interpretá-la. A montagem consistia em materiais extremamente simples: uma mesa, uma cadeira, uma tarrafa e pedras. Redes menores suspendiam-nas, uma a uma.

Cá estou eu escrevendo como se fosse a tarrafa da obra. Toda embolada, cheia de areia, casquinhas, conchinhas, restos de anzóis e cheiro de peixe. Uma rede complexa envolvida por outra mais simples. A areia que deixo cair como meu rastro; as casquinhas que vão se soltando de qualquer coisa são lascas de madeiras de barcos, remos, tinta, lixo, das quais vou me desfazendo aos poucos; conchinhas que guardam com carinho o barulho do mar e as vozes que ouço e que imagino; restos de anzóis por coisas que ainda me fisgam o coração; minha eterna “amazonice” representada pelo cheiro de peixe. Não, eu não cheiro a bacalhau, apesar de a tarrafa da obra ter sido usada no mar.

Sentada na cadeira e com meu computador na mesa, eu tarrafa envio à rede mais simples minhas mensagens, ideias e ideais. Falo com pedras. Sou uma solitária na rede, fazendo do meu ciclo virtual algo real e presente.

Creio que muitos dos que convivem nesse ambiente comigo se sintam da mesma forma, isolados e até hostilizados. Mas, sabe, às vezes ficar no virtual é mais interessante que no real. Apesar de na rede você poder ser quem você quiser, o real ultimamente está até mais superficial, as pessoas não querem saber de sonhos, de conhecimento. Não querem saber do amor, do tempo e da construção. Querem o tórrido romance e para ontem. Não se importam se você sofre, você tem que produzir.

Ouço música de tudo quanto é canto do mundo, graças a essas pedras, os amigos virtuais. Eles são outras tarrafas que me ensinam suas culturas. Ao aparecer, sou uma pedra a mais para eles. E é engraçado como há uma interseção no que falamos, as primeiras conversas sempre têm o mesmo conteúdo: por que uma pessoa legal e interessante como você está sozinha? E a resposta também é sempre a mesma: não encontrei quem desse valor a sentimentos verdadeiros. Estamos todos à procura de amor. Real.

O virtual é o campo das ideias, assim como também das fotos e filmes, mas o cheiro e o tato é algo que a rede ainda não permitiu. A amizade começa e fica, mas os abraços, beijos e mesas de boteco dependem da nossa imaginação. Enquanto isso seguimos à procura do amor, vamos sendo tarrafas recebendo mais e mais informação de outras tarrafas, tão complexas umas quanto as outras.

Somos o que somos e nos entendemos de longe, desunidos, mas o que queremos mesmo é amor.

(2010)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Do trânsito, da humildade e do perdão

O trânsito de todo dia é um verdadeiro exercício de paciência, humildade e perdão.

Paciência todo mundo já sabe o porquê. Ficar parado horas e horas numa fila interminável para descobrir que lá na frente é só uma pobre alma trocando um pneu geralmente irrita qualquer um. Irrita mais ainda quando se percebe que não é nada, só um sinal vermelho, aí o sujeito que está ao volante fica pensando: antes fosse um trocando pneu! Ao menos seria justificável!

Ah, mas as pessoas nunca estão satisfeitas mesmo. Vivem na pressa, correria, exigem que os outros saiam mais cedo, mas também não saem mais cedo. Lotam as ruas de carros, motocicletas, cada um querendo passar por cima do outro porque tem mais pressa que o outro. Além de tudo, uma atitude pouco sustentável, não é mesmo? Existe transporte coletivo e leva-se o mesmo tempo para chegar ao destino e gasta-se muito menos dinheiro.

Humildade. Essa palavra anda esquecida do léxico de boa parte das pessoas. E sabe por quê? Porque elas têm tanta pressa em receber a informação e interpretá-la que acabam, como no trânsito, atropelando o real sentido dela. Não tem nada a ver com se humilhar, se rebaixar, mas sim resignar-se e aceitar sua condição humana, de que erra mesmo e que tem que admitir isso. Só que também a pressa e o egoísmo são carregados nos corações antes de qualquer outro sentimento. E vem sempre o pensamento: eu é que não vou me humilhar para o outro e pedir-lhe perdão. Ele que venha. Ele que me provocou.

Perdão. Outra palavra que já foi mais pronunciada também. Sujeito fechou você? Perdoe-o. Você sabe o que está fazendo no seu volante. Mas já imaginou se o sujeito ali na frente está passando por algum problema que o fez se distrair e ele acabou entrando daquele jeito? E, mesmo que ele tenha feito de propósito, perdoe-o. Não corra atrás do cara para "dizer-lhe umas verdades". E se foi você que fechou alguém, escute a buzina e siga seu caminho, não vá fechá-lo de novo.

Aí vocês bateram um no outro. Não tomem seus veículos como extensão de seus corpos, afinal vocês estão vivos e deem graças por isso. Perícia existe é para isso, verifiquem quem deve pagar, paguem e cumprimentem-se. Vão em paz para casa.

Do trânsito para o lar. As pessoas deixam o volante e esquecem também que têm uma vida para dirigir. Agem em suas vidas como se ainda estivessem lá fora, entre faróis, placas e semáforos. E a pressa que se transfere para o cotidiano não deixa com que se carreguem a calma e a serenidade necessárias para estar entre os semelhantes. Então acontecem as brigas, a intolerância e o infindável ciclo de que se o outro quiser que eu o perdoe, terá que vir até mim primeiro. Assim nasce o rancor.

Rancor é uma palavra que por si só é feia. Lembra ranço. E, se pensarmos bem, é um ranço mesmo, um sentimento pesado, mal cheiroso, que encobre o coração de manteiga que deveríamos ser. Rancor é amargo e sempre acaba em solidão. De novo: não tem nada a ver com se rebaixar ou chorar (e até mesmo rir) com qualquer coisinha. Guardar rancor só faz o coração ficar enferrujado e duro, e é para isso mesmo é que serve o perdão, que não é só um ato de amor e grandeza, mas também de sensatez.

Digam-me: que graça tem tirar a paz do outro? Acaso se o outro está perturbado a paz dele vem para você e você se sente bem? Acho que não. É sensato perdoar porque, além de ficarmos em paz, também damos paz ao outro. Puni-lo porque cometeu um erro e já se retratou não faz sentido. Todos erramos, não importa o grau do erro. Não julgue, simplesmente ponha-se no lugar do outro. Às vezes ele está passando por algum problema e você é somente o cachorro que ele chutou quando chegou a casa após ter ouvido umas do chefe, que por sua vez ouviu de outro. Releve e re-leve: renovar-se e ficar leve após passar por cima dessas picuinhas.

Cada um de nós dirige um carro delicioso chamado vida, e nele estamos de passagem. Existem alguns que bebem mais, outros são mais econômicos, há os que têm inúmeras funções e outros são simples 1.0, por isso mesmo levaremos conosco somente as sensações de dirigi-lo. Cada um cuidando com carinho do seu carro e abrindo a porta com educação - e sensatez - para quem quiser entrar o mundo será melhor, porque viemos dirigir nessa estrada projetada por Deus para sermos felizes. Então, que tenhamos a liberdade para manejar o câmbio e os recursos que nossos veículos nos oferecem, e aceitar e amar os outros veículos que cruzam o nosso caminho assim como eles são.

Estão nas ruas os viadutos para provar que podemos passar por cima das vias de trânsito rápido e também por cima de coisas pequenas. Estão os trevos que mostram que é possível entrelaçar os nossos caminhos sem atropelos e aguardando nossa vez. Estão lá as placas regulamentadoras dando as regras de convivência e as de advertência para mostrar as curvas perigosas, os entroncamentos, as confluências e intersecções com as vidas que estão ao nosso redor. Eis também os radares para nos lembrarem que excesso de velocidade em resolver a vida naquele minuto não serve para nada a não ser tomar uma multa, que pode ser traduzida em dor de cabeça física, psicológica e falta de diálogo com o semelhante.

Dirija em paz. Não estou falando do seu carro, mas sim da sua vida. Dê paz ao outro. Desculpe. Perdoe. Ame. Seja leve, tire o ranço/rancor do coração. Não é à toa que "doar" é parte da palavra "perdoar". Doe-se.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Vermelho e branco

Ovo de gema mole, suco de abacaxi, pão, café, chá. Ele preparou tudo só para ela, com a ansiedade de uma criança na manhã do dia de Natal. A mesa posta com xícaras de louça e talheres, a toalha vermelha e branca xadrez, o guardanapo também vermelho, dobrado em pentágono, combinando.

Ele já havia chamado um táxi para levá-la ao aeroporto, em determinado horário, para que pudessem ficar um pouco mais de tempo juntos. Cada minuto era precioso e cada carinho especial. Assim que ele planejara tudo para que fosse inesquecível, cada gesto, cada passo, cada palavra. Com ele, ela estava ali, bem perto do céu, e uma bandeira vermelha e branca tremulando dizia a ela: "aqui você está segura". Tinha o sol nas mãos.

Foi uma semana intensa, de delícias de lugares, delícias gastronômicas, abraços e beijos. Por todo o tempo em que estiveram juntos, não fizeram mais do que aproveitar ao máximo a companhia um do outro. O café da manhã, tão especial, não só tinha sabor intenso de café, como também sabor de sentimentos brancos. Alegria, paz, sensação de dever cumprido, serenidade. Mas ainda viria algo mais.

Veio então o táxi, e com ele o medo e a sensação de vazio. O motorista desceu, os cumprimentou, começou a carregar os pertences dela e colocá-los no porta-malas. Entrou de volta no carro e esperou que se despedissem. As mãos dos dois, então, que se tocavam todo o tempo, foram se transformando aos poucos em um forte e doce abraço. Como uma xícara de café.

Longa e ternamente ficaram naquele abraço apertado e já cheio de saudade. Os dois tinham os óculos postos na cabeça, mas ele, sorrindo, baixou o seu primeiro. Por baixo da lente avermelhada, ela viu um discreto marejar em seus olhos. Foi aquele olhar que guardou consigo e que a fez também baixar seus óculos, a fim de ocultar o que ja era bastante visível. Sentimentos vermelhos. Paixão. Voracidade. Desejo. Ira. Vontade de chutar tudo para cima e ficar. Foi se afastando até ver a imagem de sua camiseta vermelha e branca refletida nos óculos dele. Entrou no carro e fechou a porta. Não conseguiu falar mais.

Até Callao foi um longo caminho. Um caminho que ela percorreu com um lenço na mão. Sabia que, quando ia a algum lugar, sempre deixava um pedaço de si. Desta vez, o que deixara ali fora seu coração.

sábado, 6 de novembro de 2010

E assim segue a medicina...

"A arte é longa, a vida é breve", diz Hipócrates, justificando perder um paciente durante a cirurgia.

E tome-lhe processo. Diante do juiz, tenta se explicar:

"A vida é breve, a ocasião fugaz, a experiência vacilante e o julgamento difícil."

Promotor que é, Confúcio quebra a ficha do sujeito:

"Quando os médicos diferem, o paciente morre."

Voltaire, um brilhante advogado de defesa, manda:

"A arte da medicina consiste em distrair o paciente enquanto a natureza cuida da doença."

Martinho Lutero, parente do morto, só quer que isso acabe logo:

"A medicina cria pessoas doentes, a matemática, pessoas tristes, e a teologia, pecadores."

Sócrates, chamado a depor, não acrescenta nenhuma novidade ao processo:

"Só sei que nada sei."

Por fim, Mark Twain, atacando de juiz, dá por encerrado o assunto, devolvendo a Hipócrates o CRM:

"Algumas pessoas nunca cometem os mesmos erros duas vezes. Descobrem sempre novos erros para cometer."

domingo, 10 de outubro de 2010

Azul

Comecei a chorar tão logo vi as brancas montanhas em contraste com o céu muito azul daquela tarde de fevereiro. Baixávamos suavemente de forma que eu conseguia ver cada detalhe, e assim que o avião fez a curva para alinhar com a pista pude ver o azul oceano ao longe.

Pousamos. Para minha alegria, todos os fingers estavam ocupados. Adoro desembarque na remota, pois posso sentir ainda na pista o vento que me move a alma. Um ônibus vinha para nos buscar e, enquanto isso, ia fotografando os azuis winglets da aeronave. Curvei-me para trás, buscando o melhor ângulo contra o sol, para ter a imagem perfeita do pássaro azul tão Cézanne e ao mesmo tempo tão Santos Dumont. Meu coração batia cada vez mais forte, e aquele vento gostoso foi ficando para trás quando subi no ônibus da companhia, até chegar ao saguão do aeroporto.

Ia calada e encantada, observando os rostos das pessoas que cumpriram aquela etapa. Alguns em conexão, outros em seu destino, como eu. Era interessante olhar cada traço, cada expressão de alegria da expectativa da chegada. Altos, baixos, gordos, magros, olhos redondos, olhos puxados, verdes, negros, azuis. As vozes, mais agudas pela empolgação, se misturavam aos anúncios de outros voos provindos de inúmeras partes. As mãos gesticulavam sem parar, contando os segundos para a travessia da porta de vidro e o abraço do outro lado.

Senti um arrepio delicioso quando encontrei o letreiro escrito "São Paulo" sobre a esteira. Bagagens de todas as cores e todos os tamanhos passavam por mim e eu sorria um tanto abobalhada. Mesmo já tão habituada à rotina  aérea nunca deixei de me encantar com todo o processo de voar, até observar as malas na esteira me fazia feliz. Como havia sido uma das últimas a embarcar, minha bolsa azul saiu entre as primeiras. Peguei-a e coloquei-a sobre o carrinho.

Atravessei o saguão e lá estava ele, a camisa muito azul com que eu o havia presenteado em seu aniversário, o coração pulsando tão forte como o meu. Sorria e se mostrava agitado tão só me via através do vidro fumê da sala de desembarque. Acenava, quase que pulando, trazia nas mãos uma rosa. Não consegui definir muito bem seus olhos, mas pelo que estava vendo, com certeza eles estavam cheios de lágrimas, tão feliz que estava.

Aquela camisa azul me fez divagar em pensamentos no céu que havia acabado de cruzar por ele, tão presente nos cartões-postais que trocamos por todos esses meses que ficamos sem o abraço um do outro. Aquele azul que o tempo todo nos acompanhou estava presente em cada detalhe, em cada verso, em cada linha que escrevemos. Aquele azul estava na voz dele que me telefonava às duas da manhã, sem se importar com fuso horário, para me dizer que me queria.

Azul que estava em cada ponto, cada parágrafo, cada papel. Azul que estava nos aviões que amávamos, nas estradas que seguíamos, no oceano que admirávamos, na música que ouvíamos. Azul que estava na tinta da caneta com que me deixava bilhetinhos da última vez em que nos abraçamos, azul que estava no vestido que eu usava da primeira vez em que o vi.

Azul que estava em cada passo que dávamos, cada rua em que caminhávamos, cada rosto que víamos. Azul que estava em cada fotografia tirada, cada sorriso eternizado, cada lágrima vertida, cada soluço contido. Azul que eu via tão intenso naquela camisa polo, vestindo o peito que me acolhia e os braços que, ali do outro lado do vidro fumê, me estavam estendidos.

Saí empurrando aquele carrinho feito doida e logo passei a porta de vidro. Era tudo um sonho azul que se transformava novamente em realidade. Abraçamo-nos ternamente e nos brindamos com um beijo azul.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Conquista

Estou aqui sentada na mesa da universidade em que estudo aguardando para iniciar a prova do vestibular. Calma, isso é somente uma mera questão burocrática a fim de forçar a instituição a aceitar minha reopção de curso, mas estou confiante e logo isso se resolve. Enquanto aguardo fico de cabeça baixa, quase dormindo, e pensando na morte da bezerra.

Então me autorizam a começar a prova. Sempre gostei de fazer a redação primeiro, porque estou de cabeça fresca e aí me saem as melhores frases. Aquelas assim, para coroar o texto. Li a proposta, o tema era qualidade de vida, com uma porção de fatores que levam a uma boa existência, como alimentação saudável, atividade física, amigos, amor, fazer as coisas sem pressa... e nessa divagação bovino-tanatológica me ocorreu algo fantástico: qualidade de vida é conquista.

Sim, aquela coisa gostosa que começa ainda lá na sua infância quando você consegue comer sozinho e aprende a fazer cocô no peniquinho; depois quando consegue descer os degraus da escada; e quando você tem seis anos e discute com seus tios que já é grande e não precisa que lhe falem como a um bebê. Isso tudo é conquista. Conquista de maturação neurológica, conquista de respeito. Eu tenho seis anos, mas não sou um neném. Converse comigo direito!

Aí vem a conquista das letras. Olha, eu sou inteligente! Já sei ler, já sei escrever e não faço outra coisa senão escrever com giz meu nome pelas paredes do prédio afora. O síndico quase matou a minha mãe, mas ela, mesmo brigando comigo, ficou orgulhosíssima pela caligrafia redondinha que saiu. Conquistei o mundo letrado. Sou incrível.

Na adolescência, vem a conquista dos gatos e gatas do momento. E é aquela história toda que a gente já conhece: chegar junto, beijar, ficar, namorar, transar, descobrir. Não é a conquista da pessoa amada ou querida, é a conquista do poder fazer cada coisa.

Vêm o vestibular, a universidade, a formatura, a pós, o casamento, os amigos que vão e vêm, os pais e os avós que se vão, as separações e os divórcios. Tudo é conquista. Espera, divórcio é conquista? Depende, se for de um parceiro insuportável, é a conquista da liberdade.

Mas note que tudo é a seu tempo. Coisas de criança têm seu espaço em épocas de criança. De adolescente idem, de adultos mais ainda. Está certo que alguns atropelam fases: há aqueles que têm filhos ainda na adolescência, aqueles que se casam e se separam cedo demais, aqueles que caem na boemia aos quarenta ainda achando que têm vinte e cinco. Há aqueles que nunca se casam, que nunca saem da adolescência; há os que morrem jovens demais antes de terem cumprido todo o rito preparado.

Ah, mas se o "cronograma" for cumprido à risca, a qualidade de vida está exatamente aí. Viver cada coisa a seu tempo. Conquistar seu espaço, seu caminho, ter coragem para mudar o que não está bom. Perceber a tempo que certas realizações são verdadeiros elefantes brancos: lindos, porém o que fazer com eles?

Então você retoma e faz tudo de novo. Começa do zero. Conquista tudo outra vez e melhor. E maior. E cada vez mais alto. E uma coisa de cada vez.

Qualidade de vida é isso. É fazer o que der na telha, sem passar por cima de ninguém. É conquista. Sem pressa.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Como detonar uma noite em sete passos

Definitivamente assinei embaixo de uma coisa que sempre preguei: homem de balada não presta. Nunca tinha ficado com um e, após trinta e dois anos, dois casamentos e um período de solidão, resolvi experimentar para ver qual era. Antes tivesse ficado em casa cuidando do meu pai.

Cheguei à danceteria sozinha, pouco depois da meia-noite. Estava ainda tímida, dançando apenas agitando de leve o corpo, sem pretensões. Não gosto de aparecer, apesar de adorar dançar. Com quarenta minutos na pista, aproximou-se de mim um rapaz muito bonito, musculoso, cavanhaque... Logo eu, que tenho fetiche com barba! Ah, achei que estava arrasando. Realmente eu deveria estar, para ter atraído o tipo.

Sou mesmo muito tímida, exatamente por isso escolhi uma profissão na qual eu realmente não precisasse aparecer em lugar algum. Sou cronista de um jornal em Manaus, meu pai mora em Belo Horizonte e havia ido visitá-lo. Para essas viagens, sempre tenho um chip de celular da capital mineira para o caso de meu pai precisar falar comigo. Bendita hora que só uso esse chip por lá, porque assim desligo depois e não tenho que atender ninguém ao meu real celular de Manaus. Ao melhor estilo cafajeste, eu não assumo. Eu sumo.

Então, o moço perguntou se eu gostaria de dançar - logo o que eu detesto e faço questão de não aprender, que é o forró. Aceitei, pois não tinha nada melhor para fazer naquele momento, e então começamos a dançar e conversar. Ele era fisioterapeuta e tinha trinta e seis anos. Tinha um bom papo, uma voz bonita, mãos macias. Beijou-me, e naquele beijo ficamos cerca de dois minutos.

De repente, alguém joga cerveja para cima e os respingos atingem o meu braço. Nem liguei, limpei na roupa mesmo, e o rapaz ficou maluco. Cutucou o amigo com quem estava e ficou procurando quem poderia ter sido o autor da brincadeira. Abri um olho enorme, imaginando o começo de uma confusão. Não chegou a ocorrer, porque brinquei com a situação e disse que aquilo era coisa de argentino, que não suporta brasileiro se divertindo, era para deixar para lá. Mineirinho esquentado aquele! Característica número um: brigão.

Beijo vai, beijo vem, uma dançarina de rumba subiu ao palco. Eu estava abraçada com o rapaz, e a dançarina me puxou para cima do palco, e puxou outro rapaz que estava com outra menina e nos fez dançar juntos. Até aí tudo bem. Terminada a dança, agradeci ao rapaz e fiz descer por um lado do palco e ele pelo outro. O mineirinho esquentado foi atrás do rapaz com quem dancei só para dizer "vaza, véi!" com a articulação mais precisa do mundo. Característica número dois: ciumento.

Continuamos a conversar. Ele me pergunta como é a questão de namorados, ficantes e afins em Manaus. Respondi que havia sido casada duas vezes. Ele vai e me solta esta: "Safada você, hein!" Ao que redargui: "Safados foram os dois que me largaram." Ele percebeu que engelhei a cara e logo me puxou para perto, antes que eu mudasse de ideia. Característica número três: babaca.

Aí eu já não estava mais tão à vontade. Ainda bem que começou a tocar frevo e eu saí como louca pela pista, dançando e pulando. Ele achou graça, pois nunca tinha visto ninguém dançando frevo assim de perto, foi me perguntando onde tinha aprendido a dançar, como era minha vida social normalmente. Respondi que aprendi nos vários locais que frequentei e em que morei. Inclusive que tinha me batido uma saudade danada da El Huevo, de Santiago, onde toca música de tudo quanto é jeito. Perguntei se ele já havia ido a Santiago, ele disse que não, que só conhecia a Europa e que não era muito afeito à América do Sul. Característica número quatro: arrogante.

Ao som de I will survive saí rodando pela pista. Tive que dar uma de doida - eu sou tímida e não tinha bebido! A sorrir, ele ficou me observando encostado num pilar do ambiente, com os braços cruzados e aquele "olhar 43". Eu não sabia se ria ou se chorava. Ele me puxou para perto e perguntou: "você bebeu todas antes de vir para cá, né?" Respondi que estava dirigindo e este tipo de loucura eu não costumo cometer. Característica número cinco: fala do que não sabe.

Ele não estava achando interessante o fato de eu querer ter ido ali só para dançar. A todo instante me puxava para perto. Acabou que já que eu estava ali mesmo, o beijei de novo só para não ter que ouvir mais besteiras. Qual o quê! Ele me pergunta quando volto a Manaus, eu digo que dentro de vinte e quatro horas; ele vai e me larga esta no ouvido: "adoraria transar com você antes de você ir embora." E eu com aquela cara de "uotarrél" ou, em português claro e simples, "cuméquié?", fingi que não ouvi e ele repetiu com outras palavras: "adoraria fazer amor com você antes de você ir embora." Pronto. Matou a noite. E ainda emenda: "tenho chance?" Sorri e fui apenas educada: "tecnicamente." Característica número seis: apressadinho.

Já sob o embalo do samba, trocamos telefone (o chip de Belo Horizonte, é óbvio) e ele passa as pontas dos dedos pelo meu rosto, fazendo como uma letra S. "É minha marca registrada, nenhum homem vai fazer isto com você." Repetiu o gesto sobre a minha boca com a ponta do dedo indicador. Característica número sete: idiota. Ou seria infantil?

Ele foi embora, insistindo para que eu fosse com ele, mas fiquei por lá mesmo, para dançar mais um pouco. Lembram-se da característica número dois? Pois é, a pergunta fatal: "veja se não vai me trair aí dentro, hein!" Sim, pode deixar. Não vou. Até porque é só agora que eu vou conseguir dançar sem você ficar me pegando. Coisa mais chata!

"E aí, quando você volta a Belo Horizonte?" - e eu, mais que depressa: "até pensei em vir morar aqui, mas agora estou com a certeza absoluta de que devo voltar é para Santiago." Se ele não entendeu esta, paciência. Eu ali falando que era melhor estar em outro país que perto dele e ainda assim ele não entendeu! Característica número oito? Sim. Eram sete passos, mas este posso considerar o oitavo: burro.

No dia seguinte, lá está meu telefone tocando. Era ele. Se eu atendi? Desliguei o telefone, retirei o chip e entrei na sala de embarque quando a voz de Iris Lettieri anunciou meu voo de volta com conexão em Brasília.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Hoje me dei uma rosa


"Toda mulher gosta de rosas e rosas e rosas
Acompanhadas de um bilhete me deixam nervosa
Toda mulher gosta de rosas e rosas e rosas
Muitas vezes são vermelhas, mas sempre são rosas"

(Ana Carolina/Totonho Villeroy)

Outro dia enviaram-me de novo aquele famoso e-mail da mulher que recebe rosas e não é nenhum dia especial. Ela recebeu porque apanhou tanto do marido que morreu. Estou, na realidade, farta de receber essas correntes "pela vida": esta mulher que morre pela violência doméstica; aquela moça cuja mãe falou para não beber e ela só tomou refrigerante e, mesmo assim, um bêbado bateu no carro dela e ela morreu; as Nizildinhas da vida, cujo tratamento de câncer na rebimboca da parafuseta do ângulo pontoencefaloduodenal depende de você repassar a corrente para trezentas mil pessoas... As causas são nobres, mas a consciência é minha, e dá preguiça entupir a caixa postal alheia com bobagens.

Agora vêm aqueles críticos chatos e com o coração cheio de amor para dar e dizem "nossa, que cronista mais insensível!". Podem dizer à vontade. Não sou insensível, sou prática. Depois de anos de internet, certamente sei diferenciar os tipos de mensagem que recebo, e seleciono-as com muito critério antes de repassar, ainda mais se estiverem falando de violência, doenças e toda sorte de coisas ruins.

Voltando à mulher que recebeu rosas. Desta vez esta mulher sou eu. Hoje fui eu que recebi uma rosa. De mim mesma. Almocei no Mercado Central, nos botecos que avivam Belo Horizonte, em meio aos pássaros, flores, cestos, empadas e cachaça, ouvindo ao longe a sinfonia do trânsito caótico da rua Curitiba.

Placidamente tomei uma dose de cachaça que virei num copo de limonada suíça. Eu estava adorando a minha companhia. Conversava com meus pensamentos e ria das ideias que me vinham à cabeça, inclusive a desta crônica. Saí de casa linda, usando saia, meia-calça preta e salto alto. Usei minha melhor maquiagem, caprichei na produção. Comprei um vestido lindo para usar num evento mais tarde. Ah, os brincos que comprei também são maravilhosos. Tudo isso para quem? Para mim. Eu mereço. E enquanto ainda aproveitava minha própria companhia e saboreava minha limonada alcoólica, me desliguei completamente dos problemas do trabalho. Eu estava adorando estar ali para mim mesma, dando gosto de me olhar ao espelho. Mulher que recebe rosas pela morte? Sou uma que celebra a vida.

Levantei da mesa, paguei e fui andando devagar pelos corredores do Mercado. Parei em uma floricultura e comprei uma rosa. Trouxe para o escritório e todos ficaram me perguntando de quem a ganhei. Respondi, sorrindo: "de mim mesma". Não sou ruim ou insensível por não pensar nos outros, muito menos os das correntes cibernéticas, e gostar bastante de mim.

Hoje, cantando, eu me dei uma rosa. Estou celebrando a vida.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Bonsai

Ele costumava tomar banho e passar perfume antes de dormir. Dizia que nunca se sabe a quem encontraremos nos nossos sonhos. E foi em vários destes que se perdeu na imagem da mulher que idealizou: bonita, inteligente, simpática, agradável, amiga e, principalmente, independente.

Um dia, ela deixou de ser parte do cotidiano do sono e virou realidade. Ela estava ali, a menos de dez metros; havia acabado de limpar o escritório, trazia nas mãos livros, papéis, calculadoras e um bonsai. As unhas lilás, anéis bonitos, um sorriso encantador. Ela estava ali, o que o deixou mudo e pensando "é esta!".

Ele era diferente, ela só não sabia por quê. E ela também era diferente de tudo o que ele havia conhecido - o bonsai! Ele nunca havia visto ninguém entrar com um bonsai num bar! Conversaram uma boa parte do tempo em que ficaram próximos naquele local. Ela, de certa forma, também ficou paralisada ante a delicadeza daquele homem. Mas ela teve que ir embora. Despediu-se sem dizer onde morava, o que o deixou ainda mais intrigado e encantado.

O tempo passou e os dois se reencontraram. Beijaram-se, amaram-se. Tinham tudo a ver: o trabalho, o conhecimento, a alegria, a vontade de viver. Para onde iam, estavam sempre juntos. Houve convite oficial. "Quer ser a minha namorada? De andar de mãozinha dada, de fazer tudo junto, de compartilhar a vida comigo?" Houve o aceite oficial, houve a apresentação mútua aos círculos de amigos.

De repente, ele sentiu um vazio no peito e, sem se dar conta, começou a ser grosseiro com ela. Olhava o nome dela no visor do telefone e não tinha vontade de atender. Do outro lado da cidade, ela se sentia rejeitada e se perguntando o que havia feito. A resposta? Nada. O peito vazio era o dele, não o dela.

Finalmente ele disse o que pensava. Não estava pronto para relacionar-se, estava com saudade da vida boêmia e conciliar isso com o namoro, a casa, os filhos do casamento desfeito, o trabalho era difícil. Era mais fácil sacrificá-la.

Pacientemente ela ouviu e aceitou o fora, embora não concordasse com um só argumento. Quando foi sua vez de falar, disse-lhe que ele estava sem paz, e essa paz ele não ia encontrar no trabalho, nem em outra pessoa, muito menos na boemia. Que ele não havia vivido para si próprio antes de querer viver para alguém. Que ele estava se escondendo atrás de seus objetivos profissionais para disfarçar uma frustração pessoal. O peito vazio era o dele, não o dela. Ela, sim, estava em paz.

Daí a vida dele recomeça, vem outra mulher de bonsai na mão, ele se encanta e se empolga, volta o vazio do peito, recomeça a grosseria, lá vai outra mulher bacana embora. Fica a sensação de que nenhuma é boa o suficiente, mas não é isso. É a fantasia de querer a mulher perfeita para si e, na hora em que ela aparece, não saber o que fazer com ela.

É melhor ter cuidado com o que se pede.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Balões

Ligou para ele e perguntou onde estava. Em casa! Um domingão daquele, um sol de rachar mamona, e ele em casa!

- Ah, venha para cá! Estou no parque! Vai começar o show daquela banda que você adora.

- Então me espere. Estarei aí em quinze minutos.

E ele foi mesmo. Quando chegou, deu-lhe um abraço apertado, pois sabia que ela estava precisando muito de carinho naquele momento tão complicado. Convidou-a para sentar-se, e assistiram ao show e cantaram todas as músicas juntos. Comeram batatas fritas, ela tomou suco de açaí e ele coca-cola. Riram, contaram piadas, fizeram comentários sobre várias coisas e planejaram textos, caminhos e roteiros literários: eram escritores e do cotidiano se aproveitavam para destilar suas palavras mais insanas. E as mais engraçadas também.

Enquanto a música tocava, havia um vendedor de balões por perto, que estava faturando com a quantidade de crianças desatentas presentes: a todo instante uma deixava um balão escapar de suas mãozinhas, indo parar na cobertura do espaço onde a banda tocava. E os dois achando um barato a maneira que um mocinho tinha de recuperá-los: colou em um balão um pedaço de fita-banana, amarrou a ele um barbante imenso e suspendia-o até alcançar o balão-alvo. Mais uma coisa que merecia ser escrita e descrita!

A conversa se desenrolou por horas a fio. Ele a consolou do jeito mais legal que podia: fê-la rir muito, muito, e nem tocou no assunto que a fazia sofrer. Ela, muito agradecida, correspondia às piadas com outras, porque ele também sofria, e igualmente precisava rir. Amigos que eram, comunicaram-se com os olhos. Para desabafar, não eram necessárias as palavras literais. Para consolar, também não. E assim foram beliscando as batatinhas e cantando.

Ao fim do show, levantaram-se. Deram-se um abraço e saíram andando com as mãos um no ombro do outro. Encontraram um canteiro próximo, de onde podiam observar o movimento do parque. Resolveram só ouvir o movimento, olhando para o céu. Deitados na grama, continuaram a rir, observando os balões que se perdiam no céu muito azul daquela quente tarde de domingo.