sábado, 30 de julho de 2016

Por que a geração atual odeia parente

Toda família tem um neto ou uma neta favorita. Aquele primo perfeitinho, de quem você fica até com raiva de tão certinho que ele faz tudo na vida. Ou ele ganha bem, ou é cheiroso, ou tira sempre notas boas, sempre está em vantagem sobre o resto da família.

Recentemente, tive a oportunidade de observar uma família a pedido, e cheguei mais uma vez a esse monstruoso diagnóstico das relações humanas: família é quem a gente escolhe, o resto é parente. Vejam bem, não sou psicóloga, sou fonoaudióloga, também cuido de gente e as relações humanas, principalmente as familiares, são necessárias na minha profissão. Por isso talvez elas sejam a parte mais dolorida e demorada em uma terapia.

A quantidade de memes de facebook sobre odiar parentes é incrível. E eu e a maioria das pessoas nos identificamos com todos eles imediatamente. E foi observando essa família que citei acima que pude ver o quanto quem nos detona são os nossos próprios pais. Geração nascida na década de 50, 60, que é o caso dos meus. Antes que vocês venham com o papo sobre eu ser ingrata com eles, explico: não tenho obrigação nenhuma de ser grata por aquilo que me detonou e não me ajudou a crescer.

Nossos pais falavam mal da gente. Não sei se por falta de assunto, eles precisavam de algo em comum com os demais parentes para iniciarem uma conversa, então falavam sobre filhos. E o que tinha de bom para falar de uma criança que, como qualquer outra, não queria tomar um banho, andava com amigos que eles julgavam não muito bons, não obedecia, não isso, não aquilo? Parente adora uma fofoca, uma desgraça alheia! Como ter o mesmo sobrenome não é garantia de confiança, ali estava o prato cheio para quem sempre esperou a gente ir para o buraco: concordavam com nossos pais e ainda espalhavam para o resto da família o quanto nós éramos filhos que davam trabalho.

Aí, é claro, sempre tem aquela avó para ficar enchendo a bola do fulaninho e detonando quem? Você! E a sua mãe nunca sabia por que diabos você não queria ir à casa da avó ou daquele parente chato que só sabia detonar você. Explicava para ela e, como você só tinha 5, 6 anos, não tinha querer não, era dia de visitar o parente chato e acabou. E lá na casa do sujeito era sempre a mesma ladainha: “ain, você não obedece, ain, você é feia, você isso, ain você aquilo”. Enche o saco você ir a um lugar onde só falam mal de você. Cansa.

Até o dia em que você descobre que quem dava a munição para o parente eram os seus próprios pais. Chocante, né? Então, na família ali de cima pude ver claramente quem era a mãe que falava mal do filho e quem era a mãe que falava bem. E, pasme, vá você falar para a mãe linguaruda que o que ela está fazendo é errado: ela diz que a mãe do outro o está protegendo. É óbvio, cara pálida, ela que é a mãe dele tem mais é que proteger; se ela não o fizer, quem o fará?

Então você percebe que é por isso que hoje não consegue ser a perua que sonhou ser quando criança (acho lindo, viu, de verdade!). Sua mãe dizia que você era feia, que se vestia mal, que não podia usar maquiagem. Cresceu, tem problemas com o espelho até hoje, e ela insiste, achando que está te fazendo um bem: você não se arruma, você tá gorda, você não sabe passar maquiagem.

Você tinha uma melhor amiga, mas não podia andar com ela. Era má pessoa? Não. O problema era o bairro comentar que ela seria homossexual. Preocupar-se em orientar os filhos sobre o assunto, não podia. Mas detonar a amiguinha em questão, ah, isso podia. E para a sua família, claro.

Você tirava sempre nota boa, mas bastava um erro seu – ninguém nasce sabendo – para você virar chacota. Eu tenho asco de me lembrar de um dia em que fui humilhada dentro de casa por uma pessoa estranha a nós, porque eu era criança e não sabia que Papanicolaou e teste de beta-HCG são coisas diferentes. A minha mãe, ao invés de repreender a pessoa, vira para mim e diz “tá vendo? Quem manda abrir a boca? Quem manda ser sabe-tudo?” Até hoje eu tenho dificuldade em levantar a mão em sala de aula e tirar uma dúvida. Tenho medo de parecer burra e também de ser aquela tia chata que faz pergunta no último minuto do último horário na sexta, que vai estudar depois dos 40 porque não tem o que fazer em casa. Até que eu sou gente boa, essa pergunta no último minuto da sexta eu não faço não, meus colegas podem ficar tranquilos. Assim como eles, também estou doida para ir embora!

E a vontade de falar mal dos próprios filhos é tão mais forte que os seus pais que eles ficam sem ação quando questionados em meio ao turbilhão. Um exemplo foi esse cara do Papanicolaou. Custava a minha mãe ter dito a ele que eu tinha só 12 anos e que isso ainda não me tinha sido ensinado? Em outra família observada, custava a mãe do fulaninho cortar a tia que tirava onda das espinhas dele? Custava a mãe de outro ter dito aos demais familiares que não vê problema algum em ter um filho homossexual e que isso não vai fazê-la amar menos o filho? Custava! Elas ficavam e ficam caladas! Vá questioná-las depois do ocorrido: elas se estressam ao extremo e tentam jogar a culpa do comportamento delas em você. Na hora em que você está diante de um médico ou outro profissional de saúde, ou ainda, de um raro parente que você ama e que tem empatia por você, e tem a oportunidade de falar o que sente em relação àquilo, elas tentam de toda forma se justificar e nos silenciar, para não causar confusão em família. E nem venham me falar que é por falta de escolaridade desses pais: estou falando tanto de gente que tem somente o fundamental como gente com nível superior e pós-graduação.

Você também começa a observar que os seus pais têm bastante amizade com aquelas pessoas que todo mundo mais detesta, e eles não entendem por que essa gente é odiada. São os parentes e amigos que também falam mal dos filhos ou de alguma forma fizeram mal para a família algum dia. Os mesmos que acham um absurdo hoje em dia não bater nos filhos, os mesmos que acham absurdo mulher responder à altura de “ordem” do marido, acham que depressão é frescura, que homossexualidade é falta de porrada, que preto e/ou pobre não são gente, que alergia é invenção de menino, que acham absurdo as relações estarem descartáveis atualmente. Na via contrária, você também observa que aqueles amigos dos seus pais que você ama e que eles visitam menos são exatamente os que sempre falaram bem dos filhos. Você não se lembra de nenhuma nota ruim daquela fulaninha, filha da beltrana, lembra? Pois é, das minhas todos se lembram até hoje. Depois ninguém sabe por que eu sou grossa. Por fim, você descobre também que não tem raiva daquele primo perfeitinho lá de cima, você tem raiva mesmo é de a sua avó ficar repetindo isso o tempo todo.

Por aí você entende o quanto sua autoestima detonada favorece a aparição de pessoas abusivas e manipuladoras na sua vida, que usam a necessidade que você tem de ser amada contra você. Agridem psicologicamente, às vezes fisicamente, como sei de alguns casos, jogam a família contra você, vendem a imagem de boas pessoas para que todos acreditem que você é a errada por desprezar um sujeito tão bacana. E é claro que nesse tipo de família o vagabundo se cria, porque ele sabe que quem deveria te defender vai ajudar a detonar você. Você sempre estará errada. Então você termina com uma coisa dessas e percebe que merece muito mais da vida. E chega à maravilhosa conclusão de que não são as relações que estão descartáveis: somos nós percebendo que não temos que aceitar migalhas de atenção e chamar de isso de amor.

Sou grata por muitas coisas sim. Sou uma filha que dá trabalho? Acho que não: até hoje não fugi de casa, não usei droga (não sei nem o gosto que o cigarro tem), não tenho problema com a polícia nem com a justiça. O trabalho que eu dava era só o de ser criança e, depois, adolescente. Hoje em dia sou gente sim, fiz meu curso na universidade, trabalho com isso, com a autoestima destruída, mas em franca recuperação, tanto que nem convido esse pessoalzinho para minha casa. Não dou a parente direito nenhum de festejar quando estou na merda, muito menos de estar comigo quando estou bem. 

terça-feira, 17 de março de 2015

Olhos e coração abertos


Fiz um plano de parto todo bonitinho e, assim como o partograma, ele saiu todo da curva. E é justamente isso que o torna bacana: tudo na minha vida nunca foi no padrão mesmo, acredito que com meu filho não seria diferente.

Tudo começou na terça, dia 10/02. Vi que o tampão havia saído. Estava com 40 semanas e 2 dias de gestação e aguardei então o início do trabalho de parto espontâneo. Na quarta, quinta e sexta o tampão continuou saindo, e ainda na sexta, 13, comecei a ter contrações. Começaram às 5 da manhã. Pensei: hoje vai! E foram ficando fortes e de 3 em 3 minutos. Fui para a maternidade.

Chegando lá, umas 17 horas, as contrações haviam parado e fui submetida a exames de praxe. Algumas enfermeiras disseram que eu deveria ser internada para fazer a indução naquele momento. Não havia levado nada para o hospital, estava despreparada e, se meu marido saísse para buscar qualquer coisa em casa, eu ficaria sozinha, porque moramos bem longe do hospital. De verdade? Arreguei. Saí de lá, não quis ser internada e voltei para casa.

No sábado não senti nada. No domingo, as contrações voltaram no mesmo esquema de sexta. Fui para a casa da Eliana, minha doula, que fez alguns exercícios comigo para ajudar na dilatação. No último exame de toque que havia feito na sexta já estava com 4 cm. Era um indicativo de que estava correndo tudo fisiologicamente bem. Pausa: outro dia comentei que para parir você não precisa de uma vagina, mas sim de joelhos íntegros. Você agacha, anda de pato, abaixa para pegar algo, já que a barriga não te deixa dobrar no meio. E haja joelhos para executar toda a série proposta pela Eliana! Bom, mas aí lá pelas 13 horas, as contrações simplesmente pararam. Voltei para casa mais uma vez.

Na segunda, dia 16, de novo não senti nada. Nada mesmo. Nem mesmo movimentos fetais. Aí fiquei preocupada. Desta vez me muni de coragem e fui de novo para a maternidade, preparada já para ficar. Passamos na casa da Eliana para buscá-la e seguimos para o Sofia Feldman.

Fui internada às 17 horas. Parece que a mudança de ambiente me fez bem. Ao entrar na sala do pré-parto, comecei a sentir contrações novamente e os movimentos do bebê. Marcaram meu nome no quadrinho e começaram a me monitorar. Meu marido, Paulo César, revezava com a doula, para que eles pudessem comer e descansar. Quem passou aquela noite comigo no hospital foi ele.

Até às 10 horas da terça senti contrações. Inclusive dormindo tive. Sonhava com elas. Porém, quando acordei de verdade, elas simplesmente pararam. Aí pedi a primeira intervenção: descolamento de membranas. A enfermeira fez tão direitinho e foi tão cuidadosa que não senti a dor absurda que imaginei que ia sentir. Suspeitei estar com a bolsa rota, pois o tampão que havia começado a sair na semana anterior agora vinha com uns gruminhos verde-escuro, que percebi ao sentar na cama. Mecônio. Ah, meu Deus...

Pedia a todo instante uns pensos, esses pedacinhos de pano para colocar na calcinha, enquanto sentia as contrações. Todo o momento que a doula estava comigo ela me lembrava de fazer agachamento para ajudar na dilatação. Minha bexiga devia estar com uma capacidade de no máximo uns 40 mL, porque além de fazer xixi toda vez que agachava, até doía pelo peso do bebê. Cheguei a dizer que estava a fim de fazer um litro de xixi, que não aguentava mais ficar fazendo de pouquinho em pouquinho. Evoluí para 5-6 cm até as 13 horas.

Nesse momento, foi feita a segunda intervenção: ligaram a ocitocina em mim. Meu colo já estava favorável, então era só um empurrãozinho mesmo. As contrações estavam suportáveis. Eram nível piriri. Só que nem bem se passaram dez minutos de ocitocina, tive uma cólica de rim brava. Pedi socorro pelo amor de Deus. Acharam que eu estava confundindo contrações uterinas refletidas por todo o abdome com o meu rim. A Eliana mesmo me disse que eu tenho uma consciência corporal muito boa, que sei dizer com exatidão o que dói e em qual escala. Pois bem, me examinaram e ligaram o Buscopan no soro também. O alívio foi quase imediato: realmente tive uma cólica de rim, e sim, ela dói mais que as contrações uterinas.

Lá pelas 15 horas resolveram ligar um aparelho de cardiotocografia em mim. Contavam que a minha idade gestacional era de 42 semanas e 2 dias (mas para mim ainda continuam sendo 41+2, e não tem quem me demova disto!), e que por isso tal monitoramento era necessário. A essas alturas, meu coração de mãe já começou a pensar que o desfecho não poderia ser aquele que sonhei. Para começar, tinha pensado em parir na água, num dia de sol, com a luz vindo do meu lado esquerdo. Só pela idade gestacional já não pude ir para a banheira, aí o negócio desandou, embora tivesse acesso a tudo o que precisaria, mas usei mesmo só o chuveiro.

Às 17 horas me levaram para a sala de parto. A luz vinha do meu lado esquerdo, como imaginei. Desta vez o Paulo César e a Eliana puderam ficar junto comigo ao mesmo tempo. Ligaram de novo a cardiotoco em mim. Batimentos cardíacos do feto não eram tranquilizadores. As contrações estavam mais fortes, vindo de 3 em 3 minutos, nível piriri mais agressivo. Romperam minha bolsa e saiu pouquíssimo líquido, oligrodrâmnio já indicado no ultrassom que havia feito com 39 semanas. E nada de o trabalho de parto engrenar. Estava deitada sobre meu lado esquerdo e a posição me incomodando demais.

Às 19 horas as contrações atingiram um nível de dor insuportável. A cólica de rim ficou bem para trás. Parecia que tinham dois ganchos, um de cada lado do osso da bacia, que eram tracionados, me rasgando no meio. A dor começava no púbis e se espalhava pelas laterais do osso. Ao mesmo tempo, sentia o bebê batendo no púbis e voltando. Pedi analgesia.

Antes de ir para o biombo da analgesia, conversei com o Dr. Roberto, que estava de plantão naquela noite, e já mandei a real: como escrevi no plano de parto que estava disposta a encarar uma cesárea se fosse necessária, que ele preparasse tudo caso após o efeito da analgesia passar eu ainda não tivesse parido. Muito solícito, esclareceu todas as dúvidas, fez um toque, e a posição do bebê sempre dava -1 em relação à espinha isquiática, e saiu. Eu queria um parto normal, mas não a qualquer custo. E não me perdoaria se acontecesse qualquer coisa com meu bebê.

Fui para o biombo e cheguei lá vomitando, de tanta dor. Minha pressão, que até então estava nos 11 x 8, foi a 15 x 10 (altaaa...!), que vi no monitor. Alguém foi lá limpar a bagunça que eu havia feito e logo a Dra. Rafaela resolveu meu problema. Alívio imediato, voltei para a sala de parto. Desta vez tudo escuro, as luzes apagadas, só a do banheiro, que estava de frente pra mim, acesa. Fiquei na banqueta de parto com a cardiotoco ligada outra vez. Pedi para baixarem o volume, porque o barulho estava me estressando. Fui monitorando as contrações e fazia força toda vez que o número verdinho ia lá nas tampas.

"Vai passar". Foto: Eliana Cunha

Sentia a vagina arder. Colocava a mão embaixo para ver se sentia a cabeça do meu filho descendo. Nada. A enfermeira que me acompanhava, Graziele, até me perguntou o que eu estava sentindo, para tentar me ajudar. Iluminava o ambiente com a tela do celular – confesso que essa iluminação estava até agradável, porque tudo escuro também era muito estranho. Colocaram oxigênio em mim. Ela fez toque, e a posição do bebê continuava sempre em -1 em relação à espinha isquiática. A dilatação já estava em 7-8 cm. O índice de Bishop para mim dava 9 no momento da admissão, o que contava como bastante favorável à indução, nem lembrei de perguntar nesse momento, que deveria estar ainda bem mais alto. Fiei-me nisso.

Quase 22 horas, o efeito da analgesia passou. Já estava totalmente dilatada. Voltei a sentir as contrações e pedi pelo amor de Deus para desligarem aquela ocitocina de mim e saí arrancando as correias da cardiotoco. Já lá no fundo eu sabia que seria cesárea. O Dr. Roberto entrou na sala, fez toque novamente e, adivinha! Não saímos do -1! Ele me informou que se tratava de uma parada de progressão e que era indicação real e necessária de cirurgia. Lembro de ter falado: “salva a gente então, Roberto!”. Ele foi muito bacana e explicou que tentaram ao máximo seguir tudo o que estava no meu plano de parto, mas tem coisas que não estão na nossa mão. Como já havia voltado a sentir as contrações, ele explicou mais algumas coisas que não me lembro bem, mas sei que aceitei a “derrocada” de bom grado.

Baixei a cabeça na cama, rezei um Pai-Nosso e uma Ave-Maria e pedi a Deus que nos protegesse. Contemplava o céu limpo, estrelado, e incrivelmente eu não me perguntava se eu merecia aquilo. Logo eu, defensora do parto normal! Mas não, apenas aceitava porque sabia que seria assim, não me pergunte como, não me pergunte por quê. Morria de dor, mas por dentro eu estava em paz com aquilo.

Fui para o chuveiro e a Eliana chamou a minha mãe, que estava desde as 18 horas lá fora. Abracei e beijei ela, chorei de cansaço. Reclamei que não consegui parir, mas o Paulo César me abraçou e falou que eu fui guerreira demais, que ele não aguentaria duas horas o que eu aguentei dois dias. Que eu fui brava, acreditando na causa que eu defendia. Isso me deu ainda mais forças para encarar a cirurgia.

Ainda fiquei uma hora sentindo contrações sem a ocitocina. Eram ainda fortes, mas não no nível das de 19 horas. Vocalizava a cada contração e conseguia desenhar com a voz a onda de dor que sentia. Não gritei, eram gemidos altos. O Dr. Roberto me falou que iam preparar o bloco cirúrgico e que logo voltaria para me buscar (isso foi o que ele me contou. Porque para o Paulo César ele falou a verdade: disse que me deixaria mais uma hora sem a analgesia para ver se eu poderia progredir no trabalho de parto).

Antes de entrar no bloco cirúrgico, me falaram que eu tinha que escolher apenas uma pessoa para entrar comigo. Como gostaria que fosse o marido, me despedi e liberei a Eliana naquele momento, para que ela também fosse para casa descansar, depois de tanta massagem e tanta paciência dispensada a mim durante um dia inteiro. Toda mulher merece uma doula. Sério.

Na mesa de cirurgia, recebi ainda um último toque do Dr. Roberto, ao qual classificamos de “desencargo de consciência”. Adivinha? -1!!! Dra. Rafaela voltou à cena e fui devidamente anestesiada. Ali começava o primeiro dia do resto da minha vida. Morria a Glaucia e nascia a mãe.

Às 23h37 veio ao mundo o Francisco, de olhos bem abertos, com 3,600 kg e 53 cm. Chorou só porque era protocolo. Deu uns gritinhos e ficou foi prestando atenção à sua volta. Não sei se vocês acreditam nisso, mas quando o vi de olhão aberto, pensei logo: “é uma alma velha”. E comentei na mesma hora: “aí, Pecê, ele é a sua cara!”, no que toda a equipe olhou para ele e concordou: “é mesmo, pai, parece muito com você!”. Ele teve Apgar 8 no primeiro e 9 no quinto minuto. Trouxeram-no para mim, para eu cheirá-lo e conhecê-lo. Eu não estava de mãos amarradas, apenas o cansaço físico me impedia um contato melhor com ele. Cheirinho bom de neném, mesmo com mecônio!

"Cheguei!"

O Pecê, agora papai, estava extremamente cansado e passando mal dentro do bloco. Falaram com ele que ele podia pegar o neném. Ele falou que estava com medo de quebrar o bebê! Coitado, entendo o cansaço, a ansiedade e a dor física que ele estava sentindo só de nos ver naquela situação. Mas ele foi lá e pegou, tirou foto com o meu e com o celular dele. Tirou selfie. Avisou todo mundo. Já era um papai feliz.

Avisaram-me que o líquido amniótico estava fétido. Aspiraram os pulmões do Francisco. Trouxeram a placenta para eu conhecer, do jeitinho que eu pedi no plano de parto! Comentei que o corpo humano era lindo, e a pediatra, Dra. Kamille, concordou bem comigo. Enquanto era suturada, adormeci. Dr. Roberto foi me acordar ao final, achando que eu estava passando mal, mas era só cansaço mesmo, até porque já era a hora natural de eu dormir. Nesse momento, a equipe quase inteira saiu do bloco correndo para acompanhar um parto de gêmeos de 24 semanas e ali quem ficou terminou os procedimentos de retirada da sonda vesical, me colocar na maca, vestir o Francisco e nos levar para a enfermaria.

Dispensei o marido para ele ir para casa dormir e minha mãe ficou comigo naquela noite. No dia seguinte, quase morri para levantar da cama e tomar um banho. Estava sangrando muito ainda. Não consegui dar o primeiro banho no Francisco, no que fomos auxiliadas por uma enfermeira muito simpática e solícita.

Tive dificuldade de amamentação. Nas primeiras 24 horas, nada de leite. Chorei de desespero achando que não ia conseguir alimentar o meu filho além de tudo o que já havíamos passado. Fui obrigada a ceder ao complemento, até que fui à sala de ordenha do hospital e me ensinaram a fazer a estimulação correta.

Bem, achei que ia embora para casa na sexta pela manhã, quando a Dra. Kamille passou na enfermaria e anunciou que tinha acabado de internar meu bebê, pois a PCR dele tinha dado alterada, além de a frequência respiratória estar acelerada. Caso esta afecção não fosse tratada, poderia evoluir para uma sepse. Foram mais 11 longos dias no hospital: desta vez eu como acompanhante do Francisco, que recebia antibiótico intravenoso, e tendo que levantar, sentar, sair da cama, trocá-lo, tudo com a barriga ainda doendo muito. Fora a quantidade de gás que fica presa dentro de você. Dá até choque.

Para piorar, embora estivesse dando leite loucamente e muito feliz por poder amamentar, o teste da linguinha dele deu alterado. Ele mamava muito, se cansava rápido e não se fartava. O pouco xixi denunciava isso. A avaliação da Fga. Camila, minha contemporânea de faculdade inclusive, foi fundamental para o sucesso do aleitamento.  Aprendi que a amamentação deve ser prazerosa para ambos!

Foi constatado que ele tinha o frênulo da língua um pouquinho maior, a chamada "língua presa". Alguns casos têm indicação cirúrgica, como ele, que passou pela frenotomia, outros necessitam apenas de acompanhamento. Esse teste pode evitar desmame precoce - ele estava mastigando o meu mamilo, que ardia. São essas coisinhas, “inhas”, tá?, além da pega errada, que fazem mães morrendo de dor e mamilos rachados enquanto amamentam. Está errado. Os meus não racharam e não deram problema até hoje. Sobre o procedimento, é praticamente indolor e quase não sangra. O pediatra Dr. Felipe fez na enfermaria mesmo. E a criança já mama assim que o faz.

A recuperação da cirurgia tem sido pesada. E a sensação de que todos os órgãos lá dentro estão despencando? Você não consegue parar em pé. Na semana da cesárea mesmo, não havia conseguido ir ao banheiro ainda. Na tentativa, vi estrelas, doía mais que a própria cirurgia, pois além de tudo, ardia. Deram-me óleo mineral, anti-inflamatório, dimeticona e uma injeção de cetoprofeno que, juro, vi não só estrela, mas a família inteira pela greta. É mais dolorida que a contração e a tentativa de ir ao banheiro, porque não só dói, como arde e queima. Mas consegui ir ao banheiro e há até uns 4 dias ainda estava dependendo do óleo mineral. Anestesia é punk, mano.

Voltei para casa e alguns pontos abriram. Fui ao hospital para retirá-los e voltei com uma receita de antibiótico e anti-inflamatório (de novo). Acabo de tomá-los amanhã. A cicatriz já parou de arder e já estou um pouco mais independente. Francisco faz hoje um mês. E permaneço com uma sensação inenarrável de missão cumprida, porque entrei de coração aberto naquele bloco cirúrgico. Minha cesárea foi necessária para que nossas vidas fossem salvas, e é isso o que eu digo o tempo todo: não sou contra a cirurgia, sou contra a banalização de um recurso que só deve ser usado em último caso. Não se acanhem de precisar de uma cesárea, mas sejam leoas se não precisarem. Não é fácil passar por uma cirurgia desse porte – eu já havia feito uma cirurgia abdominal anos atrás e já sabia que não seria nada fácil a recuperação.

Das mudanças no meu corpo, continuo ainda com a chamada “barriguinha de mamãe”. A pele ainda está escura e flácida na região do umbigo. Também percebi que houve mudança no ângulo da vagina, o que notei pelo novo posicionamento do absorvente na calcinha. Aliás, minhas calcinhas estão quase todas manchadas de sangue. Pensei em jogá-las fora, porém ontem, observando-as no varal, já não as vejo mais com nojo, mas como verdadeiros troféus de guerra.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Hojas sueltas

Amaneció en Bogotá. Un cielo muy azul, sin nubes, un típico miércoles de julio. Son las seis de la mañana. En la plaza de Bolívar, pocas personas, algunos que se ejercitan en la ciclovía. Los vendedores que llegan con sus frutas, y ahora llega el hombre de los globos. Un viento delicioso y gélido se hace presente, formando pequeños remolinos con trozitos de hojas de los pocos árboles cerca de la plaza. Palomas vuelan de un lado a otro, buscando cositas para comer.

Todos los días Carla iba sola a su trabajo. Empezaba su día así: salía de su casa, un apartamiento sencillo en el centro de la ciudad, seguía la Carrera 9 y cruzaba la plaza hacia la Calle 10. Pasaba por la Capilla del Sagrario, rogaba a Dios su protección diaria y iba hacia el Museo Militar, donde en frente se ubicaba su oficina. Era uma mujer hermosa, todos le fijaban mirada por donde pasaba, pues era nítido que no era colombiana, por su manera y caminar diferentes. Era arquitecta, tenía un talento increible, sabía crear y hacer de las dificuldades las mejores oportunidades para ascensión. Trabajaba muchisimo, no salía de la oficina antes de la puesta del sol.

Ella estaba dentro de sus pensamientos, haciendo el planeamiento de un día más de trabajo, portando en los brazos miles de hojas con sus proyectos. Se distraió un rato y un viento fuerte le lamió las hojas sueltas y las hizo volar en medio a la plaza. Las palomas que allí estaban se asustaron con las que todavía bailaban en el aire, volando para lejos, y despues volviendo, sin vergüenza que son. Carla se rió y se puso a recoger las hojas, cada una más lejos que la otra, haciendo un ejercicio mañanero que no costumbraba hacer. Mientras se reía, fue ayudada por un hombre sin que lo percebera.

Cuando terminó, bajandose al suelo para recoger la ultima hoja, la mano del hombre tocó a su brazo. Su risa se cerró como sus ojos. Lo reconoció. La sangre se huyó de su faz, que de rosada se volvió blanca; empezó a temblar y acordar de cosas que ya estaban sepultadas.

Gustavo. Qué diablos este hombre estaba haciendo en Bogotá? No, hagamos la pregunta de nuevo: ¿Qué diablos él estaba haciendo en Colombia, Dios? El temblor de Carla no cesaba. Vinieron a su memoria los mejores y peores recuerdos de su vida al lado de él, en aquellos microsegundos en que miraba la faz ahora sufrida de él.

Él la conoció em Lisboa, ciudad donde ella nació y siempre había vivido. Él era ingeniero civil, argentino, hablaba portugués con dificuldad. Como los dos iban a trabajar en el mismo proyecto, Carla lo ayudó con la lengua, y ya sabemos que el lenguaje del amor es universal. Lo fue a primera vista.

Gustavo sabía que solo iba a quedarse em Lisboa por dos años en aquel proyecto, por eso no empezaron una pareja de inmediato sino al cabo de seis meses. La pasión fue más fuerte que todo, hasta que la compañía porteña lo llamó de vuelta. Él quería quedarse con Carla, y la pidió em matrimonio. Ella no hablaba bien el español, pero cuando su suegra les llamaba al teléfono, ella no la comprendía, y de lejos la madre de Gustavo la ayudaba. Y se fueron así a Buenos Aires.

Tuvieron un hijito, Guillermo, que se murió de leucemia a los dos años de edad. No que hubieran sido malos padres, pero la enfermedad fue tan fulminante que no los dió tiempo de reaccionar, solo pudieron dar al hijo un ratito de vida digno y una muerte serena.

Ah, el dolor de una madre! El peor dolor para un ser humano, la “orfanidad” de un hijo. Carla no fue más la misma. No logró más trabajar, tenía depresión, palpitaciones, trastorno de pánico, fiebre sicológica. Todos los días soñaba con él, a veces él le aparecía llorando, sentiendo el dolor del tratamiento de la leucemia; de otras veces lo veía en el cielo, cándido, como un angelito, diciendo que estaba bien, que Dios le cuidaba y que igual iba a cuidar de su papá y su mamacita amada.

Aún muchos meses despues todos los días Carla visitaba la habitación de Guillermo, lo veía a dormir, acercabase de la camita, pasaba las manos por las sábanas, sentíales el olor, abrazaba las almohadas. Lloraba y volvía a su habitación, donde la esperaba un Gustavo cada vez más seco y sin ganas para nada. Ella no sabía si él estaba así aún por la pérdida del hijo o si ya no la amaba más.

Así lo fue por dos años tras la muerte del niño. A veces Carla estaba tranquilla, calma, a veces se desesperaba, pero luego todo se volvía al normal. Perturbada y cansada, solo tenía en Gustavo y su madre el apoyo que necesitaba para mantenerse viva, pues a veces no tenía ni hambre ni sed.

Carla lo fue superando de poco en poco. Casi tres años despues, cuando pensaba ya estar lista para retomar la vida y trabajar, pila que era, un nuevo golpe se hizo en su vida. Gustavo no suportaba más toda aquella situación. Pidió a Carla que volviera a Portugal, que no podría más quedarse con ella, que ya amaba a otra mujer, que ya se había acostado con la otra. Decía que Carla ahora era una mujer sin vida y sin fuerzas, y que debería irse porque ya no podría más mirarle en sus ojos, porque no aprendió a amarla verdaderamente como lo creía en el comienzo, que todo fue solo pasión, pero ahora ya no más existía.

Ella se quedó en choque. No creía que aquel mismo hombre que le sacó de Portugal, tan cariñoso, inteligente, guapo y gentil la estaba haciendo de idiota. Llegó a pensar que era una broma, solo un juguete de él para intentar salvarles la pareja. Pero no. No podía creer que él la estaba abandonando despues de años juntos enfrentando las dificuldades. Cierto, tras la tragedia los dos no fueron más los mismos. Y eso ya no lo era así. Empezó a pensar en sus valores, había cambiado de país, de cultura, de idioma por este hombre. No creía que hubiera salido de Portugal en vano y dejado a sus padres, amigos, su gente por algo que no valera la pena. No logró hacer nada sino decir a Gustavo que todo bien, que se iba, pero él nunca más volvería a verla. Preparó las maletas y se fue, sin decir a nadie su destino tampoco cuando iría. No lloró en aquel rato, pero en el avión, sí, lloró como un niño. Todo estaba acabado.

Cumplió su promesa no volviendo a Portugal, porque sabía que era seguro si Gustavo se arrepentiera, allí sería el primero lugar en que la buscaría. Fue, entonces, para Sao Paulo, Brasil, donde creía que no tería dificuldades de integración, ya que podería obtener trabajo sin la barrera del idioma. Como era una gran y talentosa profesional y muy pila, luego conoció a dos arquitectas cheveres, que le ayudaron de pronto. Alquilaron un apartamiento pequeño y dividían las cuentas. En un rato las tres ya tenían una oficina propia, y así Carla pudo salir de esse apartamiento para otro mayor y más confortable.

Pero algo decía a Carla que su corazón no estaba en Argentina, Brasil o Portugal. Sabía que no debería volver allá. Rogaba a Dios que le diera una luz, un nuevo trabajo, un nuevo proyecto. Y sabía esperar, sabía que su hora iba a llegar.

Cuando menos lo esperaba, conoció a una ingeniera que le hizo una propuesta irrecusable. Era un proyecto de dos años en Bogotá, con buenas posibilidades de remuneración. Carla no pensó dos veces. Agradeció a las amigas por todo y se fue para Colombia dentro en quince días.

Su corazón se calmó solo al pisar el suelo de El Dorado, en la salida del aeropuerto. Sentió el aire de la montaña, lo respiró profundamente, un sentimiento de paz le invadió el alma. Estaba en el lugar cierto.

Realmente la propuesta de la ingeniera era todo y hasta más de lo que pensaba. La compañía le ofreció buenas condiciones, fue bien recibida por los compañeros de trabajo. Tras un año logró comprar su apartamiento, se enamoró de la ciudad y ahora no la dejaría más. Hubiera encontrado su corazón en aquella gente sencilla y trabajadora de Colombia. Superó a la muerte de Guillermo, la salida de Argentina, la separación de Gustavo. Fue feliz en Brasil, pero ahora lo era aún más en Bogotá. Trabajaba con dedicación y no pensó más en volver a Portugal.

Mientras tanto, la compañía porteña envió a Gustavo para otro trabajo en el extranjero. Desta vez en Colombia. Estaba en Barranquilla y, tras el fin de la obra, ahora estaba en paseo por la capital colombiana.

Cuando Carla se bajó para recoger la ultima hoja, su rostro se elevó en el mismo nivel de lo de Gustavo, que también la recogía. Los ojos de él se llenaron de lagrimas. Ella añadió esta a las otras hojas que ya portaba en el brazo. Él la miró con ternura, le tocaba el brazo, hablaba un portugués nitidamente ya olvidado, con acento porteño, intentando hacerse comprender. Carla solo lo miraba, seria, mientras él hablaba de su amor. Le pidió perdón, quería volver a vivir con ella, sabía que ella era la única mujer a quién verdaderamente hubiera amado. Ella no le dijo nada, no contestó, no lloró. Una mezcla de odio y desprecio le tomó el corazón.

Simón Bolívar les fue testigo. En el corazón de Carla el desprecio crecía aún más. Miró de nuevo a la faz sufrida de Gustavo. Hizo un gesto para que él no la tocara. Salió de su presencia, en disparada por la Carrera 7, dejando que las hojas sueltas volaran por toda la plaza de Bolívar con el gélido viento bogotano de las montañas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Proibido estacionar

Já não estava aguentando mais todos os dias ter dificuldade para passar com o ônibus naquela maldita esquina. Era sempre no último horário, quando eu já me preparava para fechar a viagem e entregar o veículo na garagem. E aquela maldita esquina atrapalhando meu caminho a cinco quadras do ponto final.

Poderia pedir para trocar de linha, mas era cômoda para mim, pois a garagem era perto de casa. Cheguei a pedir para trocar de horário, porém não havia outro motorista disponível para assumir o meu lugar.

Tudo começou por causa de um boteco que abriram ali. Tinha boa música (na concepção deles), atraía muita gente. Por causa do movimento, outro boteco abriu ao lado, este com videokê. Para piorar a situação, uma igreja evangélica em frente, cujo culto começava exatamente na hora de maior movimento dos dois bares. Resultado: carros estacionados dos dois lados e na rua perpendicular, o que me impedia de virar a esquina com o ônibus.

Ganhei o apelido de “estressadinho” de tanto buzinar para as pessoas tirarem seus carros dali. Ah, e não pense, caro leitor, que eu não tentei. Falei com a empresa de trânsito da cidade várias vezes e eles simplesmente ignoram meu pedido de colocar algumas placas de “proibido estacionar” ali.

Pois bem. Um dia o estressadinho aqui se cansou.

Trabalhei normalmente o dia inteiro, só pensando na hora de passar pela maldita esquina.  Paro um quarteirão antes e admiro ao longe aquela quantidade de Chevette, Brasília, Corcel, Passat quadrado, só aquelas coisas horrorosas e cheias de massa e ferrugem que o vulgo convenciona chamar de carro, de um lado e de outro na rua.

Parei o ônibus. Havia nele uns dez passageiros, que começaram a reclamar. Ignorei. Certifiquei-me de que não havia nenhuma criança por perto.  Gritei para os passageiros: “vou arrastar este busão na lateral daqueles carros. Quem quiser participar, se segure. Quem não quiser, pode descer.”

Dois corajosos ficaram. Acelerei o máximo que pude e soltei. Fui levando retrovisor, porta, para-lama, fazendo ziguezague, aí atingia os carros do outro lado também. Eu ria, estava me divertindo. Não matei ninguém, nem queria, mas desta vez eu consegui dobrar a esquina sem buzinar!

* * *

Putz, acordei assustado e suando em bicas. Nossa, nunca imaginei que meu estresse me levaria a um sonho desses. Tudo bem, ainda bem que foi só um sonho. Levantei-me e lavei o rosto para ir à padaria. Minha mulher se animou e decidiu ir comigo.

Assustamo-nos com a quantidade de viaturas no bairro àquela hora da manhã. Na certa haviam matado algum traficante, coisa assim. Fomos andando mais um pouco e vimos um monte de carros destruídos e lá na frente o meu ônibus, o veículo no qual trabalho, totalmente arrebentado na frente e nas laterais.

Pedaços de para-choque, vidros, retrovisores, tudo espalhado pela rua. E lá na maldita esquina a equipe da empresa de trânsito instalando uma placa de proibido estacionar.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Navio pirata

- Gooooooooooooooooooooooooooooooooollllllllllllll!! - escuta-se da televisão e em seguida um baque surdo.

- Merda de time! - diz o homem, ao descer um soco no braço do sofá e espalhando pipocas pela sala. Atira-as contra a tevê e continua gritando. - Pipoqueiros! É isso que todos vocês são! Uns pipoqueiros!

- Navio pirata, - diz a esposa.

- Navio pirata?

- É, mãos de gancho, venda nos olhos e um bando de pernas de pau, haha! E só um balaço para afundar!

Pausa para a cara dele: hmmmff!

Não conseguia até hoje, mesmo depois de tantos anos, processar que a esposa torcia para outro time. Quanto mais tentava convencê-la a torcer para o seu, mais ela ia ao estádio com a galera do time dela. E ela ia mais ao estádio que ele. Nunca discutiram por causa do futebol e até apoiavam o time um do outro se fosse o caso. E quando os dois times se enfrentavam, nem conversavam. No estádio, cada um na sua torcida, e sem comentários depois do jogo - regras estabelecidas desde o tempo do namoro.

O time dela não era de tanto prestígio da mídia, embora fosse mais antigo. Então ela acompanhava pelo rádio quando não transmitiam pela tevê. Certa feita, houve uma partida simultânea de ambos em cidades diferentes. Estavam em casa, ele assistia ao dele enquanto ela escutava o dela. Em um dado momento, o time dele tomou um gol, ao mesmo tempo em que o dela fez um. Obviamente, ela gritou de felicidade. E ele, achando ruim:

- Por que você está festejando o gol, hein?

- Ah, vá se ferrar! Foi gol do meu time, ora!

Rosnaram um para o outro e assim seguiram as partidas: o time dele perdeu e o dela empatou. Normal e esperado para aquele campeonato de piratas, como ela mesma dizia.

Embora tantas outras cenas engraçadas tenham sido protagonizadas pelos dois, a esposa sentia que ele preenchia seu vazio com o futebol. Não sabia exatamente o que era, parecia uma frustração de longa data. E, no fundo, até torcia contra o time dele, não por serem oponentes, mas porque sabia que o marido precisava se desencantar com aquilo, que perder e empatar fazem parte do esporte, e não era quebrando o braço do sofá que os piratas iam ganhar, tampouco o presidente do clube iria pagar seu cardiologista. Ela não sofria porque sabia o que esperar. Ele sofria e personificava o verdadeiro significado de torcer: a camisa na mão, torcendo-a exasperado.

Mais um clássico e lá se vão os dois de novo para o estádio. Cada um na sua torcida, mais uma vez. A torcida do time dela ocupava dez por cento do estádio, o dele os outros noventa. Sem muito brilho no primeiro tempo, jogadores vão para o vestiário carregando um 0 x 0. Nas arquibancadas, unhas roídas dos dois lados. Já o casal podia se ver, pois estavam próximos das grades que separavam as duas torcidas. Mandavam beijinhos um para o outro.

Começa o segundo tempo e a coisa vai ficando mais tensa. Aos quarenta e dois minutos, o único gol da partida foi comemorado até com lágrimas pela pequena torcida. Aponta o centro do campo o juiz, final de jogo. Davi 1 x 0 Golias. Um jejum quebrado.

No estacionamento, ela radiante após a vitória; ele arrasado, a derrota estampada na cara e com a nítida sensação de que sua camisa perdia o brilho. Ambos se entreolhavam enquanto os outros torcedores iam passando por eles. Mal podia acreditar que depois de tantos anos o time da esposa fora capaz de vencer o seu. Imaginou, nesses dez metros que o separavam, que ela iria dizer tudo o que ficou entalado na garganta durante este tempo. Que iria rir da sua cara, que lhe faria gracejos pelo resto da semana.

Ele sorria sem graça. Não aguentaria ser zombado. Travava um conflito interno enorme: não queria que fosse a primeira vez que ia discutir com a esposa por causa do futebol, mas se ela fizesse alguma gozação... Não, não podia pensar nisso. Continuava olhando a esposa, sem coragem de se aproximar. Tremia, pensando no que será que ela falaria, não queria brigar com ela. Mas estava revoltado. O time dele perdeu e agora ele estava nas mãos dela.

Alguns torcedores pararam para ver a cena, as camisas distintas se encontrando ali fora, prontos para apartar uma possível confusão - ou tomar parte dela. Fotógrafos e polícia a postos. Ela, mesmo sorrindo marotamente e louca para rir, então, tomou coragem e foi se aproximando dele. Deu-lhe um beijo demorado, secou-lhe o suor da testa com a faixa que ele trazia na mão e disse:

- Vamos para casa. Hoje você merece uma massagem.

- Você não vai rir de mim?

- Não. Amanhã vou rir com você quando, no lugar desse navio pirata, esta nossa foto for eternizada na capa do caderno de esportes.

sábado, 16 de julho de 2011

Ana Rosa

No metrô de São Paulo, cansada de mais um dia de trabalho, assento-me numa cadeira isolada, na lateral de um banco duplo, que estava vazio. Na estação da Sé, entram duas moças e ocupam esses dois lugares.

Voltei à realidade ante a beleza das meninas. Comecei a prestar atenção na conversa e nos gestos. Eram um casal, ambas bem vestidas, de botas, jaquetas de couro, uma de cerca de um metro e setenta e cinco, a outra um metro e sessenta. Seriam um casal como outro qualquer, se não fosse por um detalhe: uma delas usava um lenço na cabeça. Elas estavam voltando de um hospital, em que esta fazia um tratamento contra um câncer.

O lenço era bem colorido, diga-se de passagem. Amarelo, azul e rosa. Lindíssimo. Deu um destaque todo especial à indumentária da jovem. A mais alta, que havia ido buscar a namorada no hospital, era toda sorrisos. Olhava a companheira com ternura, acariciava-lhe a face, tocava-lhe o queixo. E começou a contar piadas, fazendo com que a pequena de lenço se esquecesse de todas as dores e começasse a rir. E falou que agora é que ela estava fina, porque o lenço combinou com a roupa. E que tinha em casa outros lenços bonitos que tinha escolhido especialmente para ela.

A pequena ria deliciosamente. Momentaneamente mergulhou na alegria da namorada, que não se continha de tanta felicidade. Ela tinha ido buscá-la no hospital depois de um dia chato de consultas, retorno, tratamento, remédio, médico, toda essa rotina cansativa e trabalhosa. Essa rotina de uma luta árdua que muitos travam todos os dias, e aquele casal estava ali, na minha frente, me dando uma lição de apoio, superação e amor. Acho que em dado instante até cheguei a ser inconveniente, porque se calaram num momento em que eu as contemplava. A verdade é que eu estava em êxtase.

As meninas desceram na estação Ana Rosa. Ana e Rosa. Seria apropriado chamá-las assim, já que eu não sabia seus nomes e pela coincidência da estação em que saltaram. A mais alta abriu o braço direito e o ofereceu à namorada de lenço na cabeça. Fez-lhe, então, um carinho no lóbulo da orelha e logo sumiram da minha vista na escada rolante. Mal sabiam elas que ali permaneci observando-lhes o tempo todo e que deixei escapar uma lágrima. 

O metrô seguia, então, seu caminho no sentido Jabaquara. Meu coração estava disparado, minha pele arrepiou. Foram poucas as vezes na vida que vi tamanha prova de amor.

É bem verdade que o amor tudo crê e tudo suporta. E sobretudo emociona.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Por que escrevi teu nome no espelho

Ganhei de dia dos namorados letrinhas vermelhas de gel com a inscrição "te amo" e um coração.

Aquelas letrinhas me fizeram divagar um bom tempo. Examinei cada uma delas antes de colar num espaço muito especial. Fiquei pensando: onde poderia pregá-las? Como poderia fazê-lo sem que ficasse escandaloso?

Não, o problema não é que eu não queira admitir que te amo. Nada disso. Na verdade, te amar é um sentimento tão doce que só quem se aproxima e se interessa em me conhecer de verdade, sem me julgar, é que poderá ler em meus olhos o quanto a tua presença me faz feliz. Amor não foi feito para ser escandaloso, por isso te amo com a serenidade e o silêncio com que se contempla um amanhecer.

O guarda-roupa é uma peça tão íntima, que conta tanto da história de alguém... Quando cheguei com as letrinhas na mão e parei defronte a ele, fiquei pensando: é, este aqui é o meu coração. É aqui que ficarão estas letrinhas. Abri, então, a porta do meio, onde fica um espelho.

Espelho que é, neste meu coração, o símbolo dos teus olhos, que refletem a paz do teu abraço e a alegria de ser tua.

Espelho que reflete nos teus olhos tudo o que sou e que passei a ser desde o instante em que comecei a te amar.

Enquanto pronunciava teu nome, na ordem fui escrevendo "te amo", colando as letrinhas vagarosamente no espelho. Interessante que fiquei observando outra coisa, enquanto lia a embalagem: o gel é lavável, como o amor. É legal, porque se renova, aí tira a poeira e brilha de novo.

Meio sem jeito, as letrinhas saíram uma a uma da embalagem. Escrever "te amo" no espelho foi o mesmo que escrever teu nome nos meus olhos e para sempre no meu coração.