domingo, 1 de maio de 2011

O amor é verde

Vasculhando as minhas coisas há alguns finais de semana, encontrei meu livro de escola da primeira série. O ano era 1987 e lá estava na contra-capa: "Glaucia Regina Piazzi, 1ª série, sala 7, professora Clêmides". O quarto capítulo era sobre a letra c, fonema /k/, com o lindíssimo poema "Colar de Carolina", de Cecília Meireles. E o livro era bacana porque não só explicava letra e fonema, como também suscitava discussões sobre o tema do capítulo. E o tema deste era "cores".

Ah, vocês não sabem a alegria com que olhei a minha letra, do tempo em que era redondinha, mas já rebelde, porque a professora dizia que deveríamos escrever uma palavra por completo para só depois colocarmos seus respectivos sinais gráficos. O v de todo mundo fazia uma voltinha antes, o meu já começava sem ela, fosse maiúsculo ou minúsculo. A pergunta do livro era: "que cor você acha que tem o amor? Por quê?" E a minha resposta foi, com o V sem voltinha: "Verde. Porque simboliza muita esperança." 

Caramba, hoje eu tenho noção da profundidade da minha resposta: uma criança de sete anos dizendo que o amor é verde porque é esperança, e é mesmo! A gente chora, quebra a cabeça, mas segue acreditando que um dia vai encontrar alguém (ou algo) bacana para amar, toma outra traulitada, se decepciona e depois encontra outro e o ciclo recomeça. Sim, tem um pouco de paixão neste conceito. Mas o amor está é dentro de nós. Nós é que oferecemos o amor a outrem. Nós é que acreditamos ser capazes de transformar o mundo com a força do nosso amor.

Hoje fui ao supermercado usando a camisa do América. Não sei por que cargas d'água todo mundo ficou me olhando. Mentira, sei sim. É porque ontem meu time perdeu para o Atlético Mineiro, de virada, por 2 x 1, e assim mesmo eu vesti a camisa e saí. E o que é isso senão amor? Torcedor de qualquer outro time ficaria invocado e não vestiria o manto no pós-derrota. Nós não. Não sofremos justamente porque amamos, porque temos esperança, porque conhecemos o time para o qual torcemos. Não sofremos porque no amor não há espaço para dúvidas. E eu não tenho dúvidas de que o meu amor é verde.

O jogo de ontem foi ótimo. Não pelo resultado nem pelo esquema tático (qual?), mas pela história que rendeu. Já viram americano em delegacia? Pois é, fomos a uma ontem, e fazendo festa, porque realmente é inconcebível e incompatível um torcedor cuja camisa é atestado de boa-fé em todo o território nacional ser preso, ainda mais por desacato. O pior: o desacato não ocorreu, quem mandou o torcedor ir à p*ta que pariu foi o policial. Vai entender... E, enquanto aguardávamos a liberação do nosso motorista para voltarmos a Belo Horizonte, conversávamos sobre quem é o torcedor americano. 

A torcida é pequena e acaba que todo mundo meio que já se conhece. Foi engraçado quando surgiram duas meninas bonitas lá no meio e o pessoal se perguntou: quem são? Imediatamente começamos a rir da nossa constatação, dizendo que somos tão família que quando surge alguém novo por lá a gente logo percebe e fica instigado a conhecer. A propósito, nós, meninas, não tomamos mãozada lá no meio da galera!

Até a polícia não precisa mover uma palha para nos conter. Não há necessidade. Se existe uma corda de isolamento entre a arquibancada e o alambrado, é para que nós não a ultrapassemos. Compreendemos a instrução conforme é dada. Xingamos, gritamos, berramos palavrões como qualquer outra torcida (berrar palavrão é terapêutico!). Mas ultrapassar os limites da boa educação, isso nunca. Já disse e repito, a história da delegacia foi algo totalmente inusitado e a coisa mais non sense que já vi acontecer na torcida do América.

E os veículos nos quais nós americanos chegamos? Todos limpos e organizados, alguns mais simples, outros mais pomposos. Mas garanto a vocês que um Chevette vermelho, tocando funk em 2 milhões de watts PMPO (Potência Musical Para Otário, eu diria), rebaixado, com dois aerofólios - um no teto e um no porta-malas - não pertencia a nenhum torcedor alviverde.

A gente tem paixão? Claro que tem, é aquele conceito que falei ali em cima. Mas paixão sozinha não sobrevive. Ela precisa do amor, pois ele é o alicerce para que ela seja consciente e não soframos. Paixão sozinha é burra, ela tem que ser não o prato principal, mas sim o tempero do amor. Nós americanos apanhamos, mas continuamos amando esse time mesmo aos trancos e barrancos. Deve ser porque o amor é algo que vem de dentro de cada um de nós e com ele acreditamos e temos a esperança da renovação.

Por isso saí com a minha camisa assim mesmo. Ser cruzeirense ou atleticano em Belo Horizonte não faz diferença, ninguém liga. Mas americano não. Gosto de ser notada. Adoro ver a cara de espanto ou de admiração de desconhecidos quando estou usando o manto verde e negro. Gosto quando gritam "Coelho!", o time tendo perdido ou ganhado eles falam nosso nome. Ninguém briga conosco. Somos de paz. Aceitamos as brincadeiras e respondemos numa boa. Temos tudo o que é necessário para um bom torcedor: classe, paz, paixão e amor.

Falem o que quiserem. Só nós somos decacampeões. E o amor é verde.

5 comentários:

  1. Quem não tem vergonha de ser torcedor do time de pouca repercussão significa ter paixão.

    Por fim, não estamos na idade medieval, ainda bem.

    Glaucia, sou seu fã, pelos textos incriveis. :D

    Beijo,
    Diogo Madeira

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  2. Amores bandidos! Tô dentro.
    Não estar na idade média, não significa ter transcedido sua mentalidade.
    Saúde e paz

    Vinicius

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  3. Lindo texto.

    Como tô em duas torcidas, por assim dizer, compreendo bem.

    Ao vestir minha camisa do Cruzeiro, saio de casa com a superioridade que o tempo trouxe ao time da Toca, com toda sua grana e títulos.

    Mas ao vestir a camisa do América, saio de casa com tanto orgulho quanto, com os olhos passando por mim. Ouço "Coelho!" por muitas ruas, sou cumprimentado. Cheguei a brincar, certa vez, que usar a camisa do Alviverde é um remédio para qualquer carência.

    Não sou parte dessa "família", sou mais o 'primo distante'. Quase não visito (apesar de querer muito), mas quando chego, me sinto dentro.

    E sobre as meninas...

    "Tua torcida feminina é demais" é a frase mais verdadeira em um hino de futebol.

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  4. Henrique Fendrich13 de junho de 2011 16:32

    Gláucia, tô procurando cronistas para um blog que estou montando, e que deve ter 7 cronistas, um para cada dia da semana. Gostei dos seus textos. Vc participaria? rikerich@gmail.com

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  5. Torcer por times pequenos vem do espírito do bom combate, em defender os fracos e oprimidos. Assim, aconteceu comigo quando o verdão ia de mal a pior, o que parece ser sina, e um primo, único torcedor palmeirense da classe era por demais zoado. Tornei-me solidário a ele, eternamente.

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