sexta-feira, 18 de março de 2011

Do trânsito, da humildade e do perdão

O trânsito de todo dia é um verdadeiro exercício de paciência, humildade e perdão.

Paciência todo mundo já sabe o porquê. Ficar parado horas e horas numa fila interminável para descobrir que lá na frente é só uma pobre alma trocando um pneu geralmente irrita qualquer um. Irrita mais ainda quando se percebe que não é nada, só um sinal vermelho, aí o sujeito que está ao volante fica pensando: antes fosse um trocando pneu! Ao menos seria justificável!

Ah, mas as pessoas nunca estão satisfeitas mesmo. Vivem na pressa, correria, exigem que os outros saiam mais cedo, mas também não saem mais cedo. Lotam as ruas de carros, motocicletas, cada um querendo passar por cima do outro porque tem mais pressa que o outro. Além de tudo, uma atitude pouco sustentável, não é mesmo? Existe transporte coletivo e leva-se o mesmo tempo para chegar ao destino e gasta-se muito menos dinheiro.

Humildade. Essa palavra anda esquecida do léxico de boa parte das pessoas. E sabe por quê? Porque elas têm tanta pressa em receber a informação e interpretá-la que acabam, como no trânsito, atropelando o real sentido dela. Não tem nada a ver com se humilhar, se rebaixar, mas sim resignar-se e aceitar sua condição humana, de que erra mesmo e que tem que admitir isso. Só que também a pressa e o egoísmo são carregados nos corações antes de qualquer outro sentimento. E vem sempre o pensamento: eu é que não vou me humilhar para o outro e pedir-lhe perdão. Ele que venha. Ele que me provocou.

Perdão. Outra palavra que já foi mais pronunciada também. Sujeito fechou você? Perdoe-o. Você sabe o que está fazendo no seu volante. Mas já imaginou se o sujeito ali na frente está passando por algum problema que o fez se distrair e ele acabou entrando daquele jeito? E, mesmo que ele tenha feito de propósito, perdoe-o. Não corra atrás do cara para "dizer-lhe umas verdades". E se foi você que fechou alguém, escute a buzina e siga seu caminho, não vá fechá-lo de novo.

Aí vocês bateram um no outro. Não tomem seus veículos como extensão de seus corpos, afinal vocês estão vivos e deem graças por isso. Perícia existe é para isso, verifiquem quem deve pagar, paguem e cumprimentem-se. Vão em paz para casa.

Do trânsito para o lar. As pessoas deixam o volante e esquecem também que têm uma vida para dirigir. Agem em suas vidas como se ainda estivessem lá fora, entre faróis, placas e semáforos. E a pressa que se transfere para o cotidiano não deixa com que se carreguem a calma e a serenidade necessárias para estar entre os semelhantes. Então acontecem as brigas, a intolerância e o infindável ciclo de que se o outro quiser que eu o perdoe, terá que vir até mim primeiro. Assim nasce o rancor.

Rancor é uma palavra que por si só é feia. Lembra ranço. E, se pensarmos bem, é um ranço mesmo, um sentimento pesado, mal cheiroso, que encobre o coração de manteiga que deveríamos ser. Rancor é amargo e sempre acaba em solidão. De novo: não tem nada a ver com se rebaixar ou chorar (e até mesmo rir) com qualquer coisinha. Guardar rancor só faz o coração ficar enferrujado e duro, e é para isso mesmo é que serve o perdão, que não é só um ato de amor e grandeza, mas também de sensatez.

Digam-me: que graça tem tirar a paz do outro? Acaso se o outro está perturbado a paz dele vem para você e você se sente bem? Acho que não. É sensato perdoar porque, além de ficarmos em paz, também damos paz ao outro. Puni-lo porque cometeu um erro e já se retratou não faz sentido. Todos erramos, não importa o grau do erro. Não julgue, simplesmente ponha-se no lugar do outro. Às vezes ele está passando por algum problema e você é somente o cachorro que ele chutou quando chegou a casa após ter ouvido umas do chefe, que por sua vez ouviu de outro. Releve e re-leve: renovar-se e ficar leve após passar por cima dessas picuinhas.

Cada um de nós dirige um carro delicioso chamado vida, e nele estamos de passagem. Existem alguns que bebem mais, outros são mais econômicos, há os que têm inúmeras funções e outros são simples 1.0, por isso mesmo levaremos conosco somente as sensações de dirigi-lo. Cada um cuidando com carinho do seu carro e abrindo a porta com educação - e sensatez - para quem quiser entrar o mundo será melhor, porque viemos dirigir nessa estrada projetada por Deus para sermos felizes. Então, que tenhamos a liberdade para manejar o câmbio e os recursos que nossos veículos nos oferecem, e aceitar e amar os outros veículos que cruzam o nosso caminho assim como eles são.

Estão nas ruas os viadutos para provar que podemos passar por cima das vias de trânsito rápido e também por cima de coisas pequenas. Estão os trevos que mostram que é possível entrelaçar os nossos caminhos sem atropelos e aguardando nossa vez. Estão lá as placas regulamentadoras dando as regras de convivência e as de advertência para mostrar as curvas perigosas, os entroncamentos, as confluências e intersecções com as vidas que estão ao nosso redor. Eis também os radares para nos lembrarem que excesso de velocidade em resolver a vida naquele minuto não serve para nada a não ser tomar uma multa, que pode ser traduzida em dor de cabeça física, psicológica e falta de diálogo com o semelhante.

Dirija em paz. Não estou falando do seu carro, mas sim da sua vida. Dê paz ao outro. Desculpe. Perdoe. Ame. Seja leve, tire o ranço/rancor do coração. Não é à toa que "doar" é parte da palavra "perdoar". Doe-se.

2 comentários:

  1. Sensacional, meu Bette! Já estava com saudade das suas crônicas. Eh beijinho!

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