- Então tá. Um beijo.
- Ah, é? Só um beijo? Mas onde?
- Eu já te dei o beijo. É seu. Pode escolher.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Tive tempo
Uma alameda me inspira, tive tempo para um passeio por entre árvores e a gostosa luz do sol.
Passei na ilharga de um grande obstáculo, superando-o a uma considerável velocidade, e assim segui em frente.
Vi uma maçã a amadurecer, primeiro verde, depois amarela e por fim vermelha. Tive tempo para apreciá-la e saboreá-la.
Vi depois uma nuvem lilás se aproximar e me envolver, e num átimo levar-me ao céu. Despi-me de toda insensatez e despedi-me de todo amor desta terra.
Tive tempo para ver no espelho o halo branco da nuvem lilás, a rapidez com que me envolveu e me impeliu, muitos e muitos metros à frente do lugar que acreditava ser meu.
Tive tempo para sentir o choque, a dor, o ódio. Tive tempo para vir em casa e despedir-me dos meus pais. Tive tempo para ver o rosto da nuvem. Tive tempo para voar pela janela e dizer tudo o que me vinha à mente, tantas palavras atropeladas, tanto desespero por causa do desconhecido.
Eu só não tive tempo de engatar a primeira.
Passei na ilharga de um grande obstáculo, superando-o a uma considerável velocidade, e assim segui em frente.
Vi uma maçã a amadurecer, primeiro verde, depois amarela e por fim vermelha. Tive tempo para apreciá-la e saboreá-la.
Vi depois uma nuvem lilás se aproximar e me envolver, e num átimo levar-me ao céu. Despi-me de toda insensatez e despedi-me de todo amor desta terra.
Tive tempo para ver no espelho o halo branco da nuvem lilás, a rapidez com que me envolveu e me impeliu, muitos e muitos metros à frente do lugar que acreditava ser meu.
Tive tempo para sentir o choque, a dor, o ódio. Tive tempo para vir em casa e despedir-me dos meus pais. Tive tempo para ver o rosto da nuvem. Tive tempo para voar pela janela e dizer tudo o que me vinha à mente, tantas palavras atropeladas, tanto desespero por causa do desconhecido.
Eu só não tive tempo de engatar a primeira.
sábado, 6 de novembro de 2010
E assim segue a medicina...
"A arte é longa, a vida é breve", diz Hipócrates, justificando perder um paciente durante a cirurgia.
E tome-lhe processo. Diante do juiz, tenta se explicar:
"A vida é breve, a ocasião fugaz, a experiência vacilante e o julgamento difícil."
Promotor que é, Confúcio quebra a ficha do sujeito:
"Quando os médicos diferem, o paciente morre."
Voltaire, um brilhante advogado de defesa, manda:
"A arte da medicina consiste em distrair o paciente enquanto a natureza cuida da doença."
Martinho Lutero, parente do morto, só quer que isso acabe logo:
"A medicina cria pessoas doentes, a matemática, pessoas tristes, e a teologia, pecadores."
Sócrates, chamado a depor, não acrescenta nenhuma novidade ao processo:
"Só sei que nada sei."
Por fim, Mark Twain, atacando de juiz, dá por encerrado o assunto, devolvendo a Hipócrates o CRM:
"Algumas pessoas nunca cometem os mesmos erros duas vezes. Descobrem sempre novos erros para cometer."
E tome-lhe processo. Diante do juiz, tenta se explicar:
"A vida é breve, a ocasião fugaz, a experiência vacilante e o julgamento difícil."
Promotor que é, Confúcio quebra a ficha do sujeito:
"Quando os médicos diferem, o paciente morre."
Voltaire, um brilhante advogado de defesa, manda:
"A arte da medicina consiste em distrair o paciente enquanto a natureza cuida da doença."
Martinho Lutero, parente do morto, só quer que isso acabe logo:
"A medicina cria pessoas doentes, a matemática, pessoas tristes, e a teologia, pecadores."
Sócrates, chamado a depor, não acrescenta nenhuma novidade ao processo:
"Só sei que nada sei."
Por fim, Mark Twain, atacando de juiz, dá por encerrado o assunto, devolvendo a Hipócrates o CRM:
"Algumas pessoas nunca cometem os mesmos erros duas vezes. Descobrem sempre novos erros para cometer."
domingo, 10 de outubro de 2010
Azul
Comecei a chorar tão logo vi as brancas montanhas em contraste com o céu muito azul daquela tarde de fevereiro. Baixávamos suavemente de forma que eu conseguia ver cada detalhe, e assim que o avião fez a curva para alinhar com a pista pude ver o azul oceano ao longe.
Pousamos. Para minha alegria, todos os fingers estavam ocupados. Adoro desembarque na remota, pois posso sentir ainda na pista o vento que me move a alma. Um ônibus vinha para nos buscar e, enquanto isso, ia fotografando os azuis winglets da aeronave. Curvei-me para trás, buscando o melhor ângulo contra o sol, para ter a imagem perfeita do pássaro azul tão Cézanne e ao mesmo tempo tão Santos Dumont. Meu coração batia cada vez mais forte, e aquele vento gostoso foi ficando para trás quando subi no ônibus da companhia, até chegar ao saguão do aeroporto.
Ia calada e encantada, observando os rostos das pessoas que cumpriram aquela etapa. Alguns em conexão, outros em seu destino, como eu. Era interessante olhar cada traço, cada expressão de alegria da expectativa da chegada. Altos, baixos, gordos, magros, olhos redondos, olhos puxados, verdes, negros, azuis. As vozes, mais agudas pela empolgação, se misturavam aos anúncios de outros voos provindos de inúmeras partes. As mãos gesticulavam sem parar, contando os segundos para a travessia da porta de vidro e o abraço do outro lado.
Senti um arrepio delicioso quando encontrei o letreiro escrito "São Paulo" sobre a esteira. Bagagens de todas as cores e todos os tamanhos passavam por mim e eu sorria um tanto abobalhada. Mesmo já tão habituada à rotina aérea nunca deixei de me encantar com todo o processo de voar, até observar as malas na esteira me fazia feliz. Como havia sido uma das últimas a embarcar, minha bolsa azul saiu entre as primeiras. Peguei-a e coloquei-a sobre o carrinho.
Atravessei o saguão e lá estava ele, a camisa muito azul com que eu o havia presenteado em seu aniversário, o coração pulsando tão forte como o meu. Sorria e se mostrava agitado tão só me via através do vidro fumê da sala de desembarque. Acenava, quase que pulando, trazia nas mãos uma rosa. Não consegui definir muito bem seus olhos, mas pelo que estava vendo, com certeza eles estavam cheios de lágrimas, tão feliz que estava.
Aquela camisa azul me fez divagar em pensamentos no céu que havia acabado de cruzar por ele, tão presente nos cartões-postais que trocamos por todos esses meses que ficamos sem o abraço um do outro. Aquele azul que o tempo todo nos acompanhou estava presente em cada detalhe, em cada verso, em cada linha que escrevemos. Aquele azul estava na voz dele que me telefonava às duas da manhã, sem se importar com fuso horário, para me dizer que me queria.
Azul que estava em cada ponto, cada parágrafo, cada papel. Azul que estava nos aviões que amávamos, nas estradas que seguíamos, no oceano que admirávamos, na música que ouvíamos. Azul que estava na tinta da caneta com que me deixava bilhetinhos da última vez em que nos abraçamos, azul que estava no vestido que eu usava da primeira vez em que o vi.
Azul que estava em cada passo que dávamos, cada rua em que caminhávamos, cada rosto que víamos. Azul que estava em cada fotografia tirada, cada sorriso eternizado, cada lágrima vertida, cada soluço contido. Azul que eu via tão intenso naquela camisa polo, vestindo o peito que me acolhia e os braços que, ali do outro lado do vidro fumê, me estavam estendidos.
Saí empurrando aquele carrinho feito doida e logo passei a porta de vidro. Era tudo um sonho azul que se transformava novamente em realidade. Abraçamo-nos ternamente e nos brindamos com um beijo azul.
Pousamos. Para minha alegria, todos os fingers estavam ocupados. Adoro desembarque na remota, pois posso sentir ainda na pista o vento que me move a alma. Um ônibus vinha para nos buscar e, enquanto isso, ia fotografando os azuis winglets da aeronave. Curvei-me para trás, buscando o melhor ângulo contra o sol, para ter a imagem perfeita do pássaro azul tão Cézanne e ao mesmo tempo tão Santos Dumont. Meu coração batia cada vez mais forte, e aquele vento gostoso foi ficando para trás quando subi no ônibus da companhia, até chegar ao saguão do aeroporto.
Ia calada e encantada, observando os rostos das pessoas que cumpriram aquela etapa. Alguns em conexão, outros em seu destino, como eu. Era interessante olhar cada traço, cada expressão de alegria da expectativa da chegada. Altos, baixos, gordos, magros, olhos redondos, olhos puxados, verdes, negros, azuis. As vozes, mais agudas pela empolgação, se misturavam aos anúncios de outros voos provindos de inúmeras partes. As mãos gesticulavam sem parar, contando os segundos para a travessia da porta de vidro e o abraço do outro lado.
Senti um arrepio delicioso quando encontrei o letreiro escrito "São Paulo" sobre a esteira. Bagagens de todas as cores e todos os tamanhos passavam por mim e eu sorria um tanto abobalhada. Mesmo já tão habituada à rotina aérea nunca deixei de me encantar com todo o processo de voar, até observar as malas na esteira me fazia feliz. Como havia sido uma das últimas a embarcar, minha bolsa azul saiu entre as primeiras. Peguei-a e coloquei-a sobre o carrinho.
Atravessei o saguão e lá estava ele, a camisa muito azul com que eu o havia presenteado em seu aniversário, o coração pulsando tão forte como o meu. Sorria e se mostrava agitado tão só me via através do vidro fumê da sala de desembarque. Acenava, quase que pulando, trazia nas mãos uma rosa. Não consegui definir muito bem seus olhos, mas pelo que estava vendo, com certeza eles estavam cheios de lágrimas, tão feliz que estava.
Aquela camisa azul me fez divagar em pensamentos no céu que havia acabado de cruzar por ele, tão presente nos cartões-postais que trocamos por todos esses meses que ficamos sem o abraço um do outro. Aquele azul que o tempo todo nos acompanhou estava presente em cada detalhe, em cada verso, em cada linha que escrevemos. Aquele azul estava na voz dele que me telefonava às duas da manhã, sem se importar com fuso horário, para me dizer que me queria.
Azul que estava em cada ponto, cada parágrafo, cada papel. Azul que estava nos aviões que amávamos, nas estradas que seguíamos, no oceano que admirávamos, na música que ouvíamos. Azul que estava na tinta da caneta com que me deixava bilhetinhos da última vez em que nos abraçamos, azul que estava no vestido que eu usava da primeira vez em que o vi.
Azul que estava em cada passo que dávamos, cada rua em que caminhávamos, cada rosto que víamos. Azul que estava em cada fotografia tirada, cada sorriso eternizado, cada lágrima vertida, cada soluço contido. Azul que eu via tão intenso naquela camisa polo, vestindo o peito que me acolhia e os braços que, ali do outro lado do vidro fumê, me estavam estendidos.
Saí empurrando aquele carrinho feito doida e logo passei a porta de vidro. Era tudo um sonho azul que se transformava novamente em realidade. Abraçamo-nos ternamente e nos brindamos com um beijo azul.
sábado, 25 de setembro de 2010
Minh'alma engenheira
Deixem-me com minh'alma engenheira
Aprendi a engenhar antes mesmo de ser mulher
Aprendi a ser mulher depois de muito chorar
Depois de muito escolher e muito penar
Deixem-me com minh'alma engenheira
Aprendi a ser cérebro, pensar e criar
Antes mesmo de saber me pintar
Deixem-me com minh'alma engenheira
Minhas falas cheias de graça
Minhas unhas cheias de graxa
Minhas engrenagens e polias
Deixem-me com minh'alma engenheira
Com todo meu poder e fantasias
Com toda sorte e privilégios
Deixem-me cometer os sacrilégios
Que assim se consideram por eu ter útero e ovários
Deixem-me com minh'alma engenheira
Escolher aquele entre tantos vários
Que valoriza o pensar, o criar
O entender, o sofrer, o querer
Antes mesmo de eu saber me pintar.
Aprendi a engenhar antes mesmo de ser mulher
Aprendi a ser mulher depois de muito chorar
Depois de muito escolher e muito penar
Deixem-me com minh'alma engenheira
Aprendi a ser cérebro, pensar e criar
Antes mesmo de saber me pintar
Deixem-me com minh'alma engenheira
Minhas falas cheias de graça
Minhas unhas cheias de graxa
Minhas engrenagens e polias
Deixem-me com minh'alma engenheira
Com todo meu poder e fantasias
Com toda sorte e privilégios
Deixem-me cometer os sacrilégios
Que assim se consideram por eu ter útero e ovários
Deixem-me com minh'alma engenheira
Escolher aquele entre tantos vários
Que valoriza o pensar, o criar
O entender, o sofrer, o querer
Antes mesmo de eu saber me pintar.
Escalada
Foram vales gigantescos e montanhas pontiagudas
Subidas íngremes e o corpo que se vai
Caminhando pela estrada sem sentido
A esmo, subindo e subindo a colina
Em uma agulha ele contempla
Todos os contornos da nação e mais além
Vence os obstáculos do solo
O mato, a neve, as pedras
E sobe com a visão do céu
E das poucas aves que o acompanham
Cai
Arrebenta o joelho na escalada
A dor lhe é insuportável, mas já era previsível
Que se machucasse em uma pedra solta que não soubera reconhecer
Pedras tão parecidas com as rochas já firmes da montanha
O mato lhe dá alergia
Roça-lhe as pernas, os braços
Deixa-lhe sementes nas roupas
E vai ficando menos denso a cada trecho mais íngreme
A neve consome-lhe os pés
Não estava preparado para tamanha frieza com beleza
A alvura que lhe aparecia em volta o encantava
Mas ao mesmo tempo cegava-lhe e o enregelava
Ai, não queira que lhe gangrenem os pés!
Já a montanha de grau cinco
Pede mosquetões, cordas, estribos
Não sabe porque escolheu a face mais difícil
Mas já que estava ali era melhor encará-la
Tamanho rochedo quase intransponível
Ao fim, ao contemplar toda a nação deste ponto,
Abre as asas negras e voa até a boca da montanha vizinha
Mergulhando no vulcão em erupção
A lava consome-lhe as penas, a pena,
A raiva, o ódio
O ócio, o corpo, o coração
E torna ao pó de que da terra foi feito
Subidas íngremes e o corpo que se vai
Caminhando pela estrada sem sentido
A esmo, subindo e subindo a colina
Em uma agulha ele contempla
Todos os contornos da nação e mais além
Vence os obstáculos do solo
O mato, a neve, as pedras
E sobe com a visão do céu
E das poucas aves que o acompanham
Cai
Arrebenta o joelho na escalada
A dor lhe é insuportável, mas já era previsível
Que se machucasse em uma pedra solta que não soubera reconhecer
Pedras tão parecidas com as rochas já firmes da montanha
O mato lhe dá alergia
Roça-lhe as pernas, os braços
Deixa-lhe sementes nas roupas
E vai ficando menos denso a cada trecho mais íngreme
A neve consome-lhe os pés
Não estava preparado para tamanha frieza com beleza
A alvura que lhe aparecia em volta o encantava
Mas ao mesmo tempo cegava-lhe e o enregelava
Ai, não queira que lhe gangrenem os pés!
Já a montanha de grau cinco
Pede mosquetões, cordas, estribos
Não sabe porque escolheu a face mais difícil
Mas já que estava ali era melhor encará-la
Tamanho rochedo quase intransponível
Ao fim, ao contemplar toda a nação deste ponto,
Abre as asas negras e voa até a boca da montanha vizinha
Mergulhando no vulcão em erupção
A lava consome-lhe as penas, a pena,
A raiva, o ódio
O ócio, o corpo, o coração
E torna ao pó de que da terra foi feito
domingo, 12 de setembro de 2010
César
você é organizado e eu sou bagunceira
você é médico e eu engenheira
você é calado e eu faladeira
você é tímido e eu sou só zoeira
você é colombiano, eu sou brasileira
você é lúcido e eu sou a loucura
você é alto, já eu não tenho altura
você é força e eu sou doçura
você é precisão e eu sou ternura
você é do Verde, eu torço para o Coelho
se lhe dói a garganta, me dói o joelho
meu esmalte incolor você quer vermelho
eu gosto de suco, você coca-cola
sou desastrada, você sabe o que rola
se eu quebro tudo, é você quem cola
se eu não ligo, aí você me enrola
adoro seu jeito, completa o meu
me faz bem, me fascina, você já é meu
meu coração só pede por um carinho seu
assim somos dois e você é meu eu
você é médico e eu engenheira
você é calado e eu faladeira
você é tímido e eu sou só zoeira
você é colombiano, eu sou brasileira
você é lúcido e eu sou a loucura
você é alto, já eu não tenho altura
você é força e eu sou doçura
você é precisão e eu sou ternura
você é do Verde, eu torço para o Coelho
se lhe dói a garganta, me dói o joelho
meu esmalte incolor você quer vermelho
eu gosto de suco, você coca-cola
sou desastrada, você sabe o que rola
se eu quebro tudo, é você quem cola
se eu não ligo, aí você me enrola
adoro seu jeito, completa o meu
me faz bem, me fascina, você já é meu
meu coração só pede por um carinho seu
assim somos dois e você é meu eu
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