sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Paranoia

Durante o dia havia brigado com a esposa porque um sujeito num veículo prata a cumprimentara. Era um conhecido de anos, mesmo assim ela nem se lembrava qual o nome do rapaz.

Ele foi para o trabalho, imaginando a cena em que porventura a esposa teria conhecido o moço, se tivera algo com ele no passado, se fora um caso de adolescência. Fato é que, na cabeça dele, a esposa tinha um caso, e ele provaria.

Ao chegar à esquina de casa, tarde da noite, vira um carro, do mesmo modelo daquele do rapaz, parado à porta. Não era prata, mas azul marinho. Começou a elocubrar milhares de pensamentos, imaginava o deliciar da esposa nos braços do rapaz do carro prata e, pior, os dois rindo-se do homem traído. Entrou em casa, pé ante pé, e viu a esposa dormindo, e deitou-se ao lado dela. O carro azul continuou parado lá fora.

Como haviam brigado, pensou logo que a esposa ligara para o rapaz, para que tivessem um dia agradável que ele, o marido, não fora capaz de lhe dar. Pensou nas compras que ela fizera com o rapaz do carro prata, no prazer que ela teve durante longas horas com ele, na ânsia com que os dois ardentemente se desejavam, na chacota que ele teria virado na cama dos dois, via-os de mãos dadas na rua, no parque, via o rapaz de amizade com seus filhos, via o rapaz penteando os cabelos da esposa, via o rapaz  mandando beijos da janela do automóvel.

Ah, esse rapaz! Ele está tirando o meu sossego!

Acordou e, num rompante de fúria, estrangulou a esposa. Perplexo, arrependido e confuso pelo que havia acabado de cometer, dirigiu-se à cozinha e cravou uma faca no próprio peito.

E lá fora continuou parado o carro azul...

4 comentários:

  1. Nossa... que trágico... e isso tudo porque a esposa foi gentil e deixou o rapaz do outro carro passar à sua frente e ele, também cortês, agradeceu com um cumprimento de cabeça...

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  2. oi amigaaaaaaaa
    confesso que admiro vc mtoooooooo , parabens, continue escrevendo também, além de outras coisa, aproveite esses talentos que Deus lhe deu.
    bjss
    Gleici

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  3. Olá... O Ricardo (do coral) me apresentou seu blog. Estou lendo ainda, mas já gostei de cara desse miniconto e do poema que vem logo a seguir. Parabéns!

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